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Ao banir canção, Rolling Stones corrigem racismo – ou se autocensuram?

Banda tirou ‘Brown Sugar’, sucesso de 1971, do repertório de seus shows; letra fala sobre escravidão e faz trocadilho com vício em heroína

Por Raquel Carneiro Atualizado em 12 out 2021, 12h53 - Publicado em 12 out 2021, 12h20

Mick Jagger estava na Austrália, em 1969, quando compôs, em 45 minutos, a música Brown Sugar, um dos grandes sucessos dos Rolling Stones, lançado no disco Sticky Fingers, de 1971. Agora, cinquenta anos depois, a popular faixa foi retirada da set list da atual turnê dos roqueiros. O motivo: sua letra sobre escravidão, alusão ao estupro e drogas não cai bem em tempos de correção política. Verdade seja dita que não caía bem nem na época de lançamento, quando os Estados Unidos passavam pelo turbulento período de luta pelos direitos civis dos negros. A canção, porém, traz com ela tantos significados e interpretações que nenhuma petição ou inquisição do tribunal do cancelamento ameaçou os veteranos do rock: a autocensura veio de dentro para fora.

A música começa falando sobre um navio negreiro que desembarca escravos em Nova Orleans, nos Estados Unidos. Em seguida, a letra narra que um homem chicoteia uma mulher à noite. Embalado por uma melodia dançante e contagiante, o refrão diz: “Brown Sugar, how come you taste so good/ Brown Sugar, just like a young girl should”. Algo como “açúcar mascavo/marrom, como você pode ter um sabor tão bom/ açúcar mascavo, assim como uma jovem garota deve ser”, em tradução direta para o português.

Para além do que parece ser seu sentido literal – ou seja, expor uma escrava abusada por um homem branco – a composição esconde referências e um duplo sentido. Há quem diga que, na verdade, compara a escravidão ao perigoso vício em drogas, pois Brown Sugar era uma gíria comum para heroína. Já o guitarrista Keith Richards, contrário à exclusão da faixa dos shows, afirma que a música é uma crítica aos horrores da escravidão. Em outra ponta, a cantora de soul negra Claudia Lennear, ex-namorada de Jagger, garantiu diversas vezes que a faixa foi inspirada na estranha relação entre eles.

As muitas versões e interpretações parecem ter seu fundo de verdade. Em 1995, o próprio Jagger disse não ter tanta certeza sobre a razão de ser da faixa. “Só Deus sabe o que eu quis dizer com essa música. É uma bagunça”, contou. Ele ainda complementou dizendo que, se fosse “hoje” (no caso, nos anos 90) ele nunca teria escrito Brown Sugar. “Eu me autocensuraria. Ia pensar: meu Deus, não posso escrever de forma tão bruta assim”, disse.

Análises variadas e atuais sobre a canção, muitas delas escritas por críticos negros, se isentam de jogar a banda na vala dos racistas. A despeito da tática de massacre típica da era do cancelamento, vai ser difícil colar no grupo inglês essa pecha. Afinal, os Rolling Stones foram responsáveis por dar visibilidade a muitos artistas negros, como os grandes mestres do blues, o incontornável “rei do soul” Sam Cooke e as estrelas do reggae jamaicano. No início dos anos 70, compuseram Sweet Black Angel em homenagem a Angela Davis, a célebre ativista negra pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial nos Estados Unidos. Fato é que o rock em seu auge, entre os anos 60 e 70, tomou forma por seu espírito juvenil polêmico e pela habilidade em chocar, enquanto levava os ouvintes a dançarem entusiasmados canções com letras capazes de exaltar o capiroto ou revelar-se despudoradamente sexistas – “legado” hoje levado adiante principalmente pelo rap e pelo hip hop. Quem quiser ouvir Brown Sugar não precisa se preocupar: ela continua disponível em todos os canais de streaming. Já quem não a ouviu ao vivo, terá de se contentar com registros disponíveis no YouTube – como esse abaixo, gravado em 1973 (pelo menos até que as pedras voltem a rolar nos shows sem qualquer auto-censura):

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