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Disney+ chega ao Brasil e acirra guerra entre as plataformas de streaming

Amparado em um notável arsenal de filmes e séries, o serviço incentiva um embate no qual o vencedor é você, o consumidor

Por Raquel Carneiro Atualizado em 13 nov 2020, 20h22 - Publicado em 13 nov 2020, 06h00

No longínquo ano de 2016, a Disney colhia os frutos de uma sequência de aquisições bilionárias de grifes do entretenimento. Ao absor­ver Marvel, Star Wars e Pixar, a empresa do Mickey Mouse ocupou os cinco primeiros lugares nas bilheterias de cinema global daquele ano, ranking liderado pelo super-herói Capitão América, seguido por Rogue One: Uma História Star Wars, e pelos infantis Procurando Dory, Zootopia e Mogli: O Menino Lobo. A empresa celebrou na época o recorde de 7 bilhões de dólares em bilheteria — bufunfa que engrossou a receita total do ano, de 55,6 bilhões, outro marco inédito. A montanha de dinheiro que fluía pelos corredores não desviou a atenção dos executivos: nos bastidores, o conselho da Disney fazia um exercício de listar o que poderia dar errado a longo prazo.

O alerta de perigo piscava bem próximo, vindo da Netflix. A plataforma de streaming que abalou a indústria, atropelando de uma só vez a lógica e o modelo da televisão e do cinema, era a pedra no sapato do então CEO da Disney, Robert Iger. Por isso, em 2016, ele desembolsou 1 bilhão de dólares por uma pequena empresa de tecnologia e deu início à construção de uma casa própria no setor de vídeos sob demanda. “Era a velha lição sobre a necessidade de inovar constantemente”, diz Iger no livro de memórias Onde os Sonhos Acontecem. Nascia ali o embrião que daria origem ao Disney+, plataforma que chega ao Brasil em 17 de novembro, pouco depois de completar seu primeiro aniversário nos Estados Unidos. O novo serviço de streaming desembarca aqui com uma bagagem notável. O catálogo terá desde animações clássicas dos anos 30 e 40, como Branca de Neve e os Sete Anões e Dumbo, até o recente sucesso Frozen, passando por séries juvenis do Disney Channel e pela programação do National Geographic. O pacote conta ainda com todos os filmes da Marvel, Star Wars e Pixar e produções originais exclusivas, como a série The Mandalorian, que popularizou o fofo bebê Yoda, da família Star Wars; o musical da Broadway Hamilton; e o álbum visual Black Is King, da Beyoncé.

Desde o seu lançamento, o serviço arrebanhou 60,5 milhões de assinantes, superando as expectativas da própria Disney, que estimava alcançar a marca somente em 2022. Ao chegar à América Latina, a plataforma deve diminuir a larga vantagem da líder Netflix e seus 195 milhões de pagantes. “Nosso objetivo primordial é ampliar as opções de narrativa. Não estamos focados em superar a concorrência”, disse a VEJA Victoria Alonso, produtora-executiva da Marvel, que terá três séries originais no Disney+.

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Apesar do discurso pacifista, a guerra do streaming é real — e quem sai vitorioso é o consumidor. Do nacional Globoplay aos gigantes da tecnologia Amazon e Apple, em comum todos estão empenhados em produzir cada vez mais conteúdo de qualidade e diversificado, amparados em estratégias meticulosas de marketing e aperfeiçoamento tecnológico, tudo para conquistar sua atenção — e, claro, seu cartão de crédito (veja o quadro na pág. 88).

Ao chegar ao Brasil, em 2011, a Netflix foi a responsável não só por mudar os hábitos de consumo dos espectadores como também impôs uma melhora significativa na transmissão de vídeos on-line no país. Criada como uma locadora delivery, nos anos 90, a empresa do Vale do Silício seguiu, em 2007, a tendência abraçada pela indústria musical e pelo mercado de games de disponibilizar entretenimento pela internet. Após irritar operadoras de TV e até o Festival de Cannes — defensor da bandeira de que streaming não é cinema —, a Netflix abriu as portas para um futuro incontornável. Em 2019, as plataformas de streaming chegaram, juntas, aos 864 milhões de assinantes no mundo. O número deve subir em 2020, impulsionado pelo isolamento social.

No Brasil, estima-se que a Netflix tenha chegado aos 17 milhões de pagantes — superando os 15 milhões da TV a cabo. Segundo a Comscore, companhia que mede o fluxo de dados na internet, 50 milhões de brasileiros acessaram mensalmente a plataforma no último trimestre. O segundo lugar está a uma distância razoável. A nacional Globoplay atraiu em setembro 15,8 milhões de acessos, seguida pela Amazon Prime Video, com 14,9 milhões. Não à toa, o Disney+ repetiu aqui uma tendência vista nos Estados Unidos: a de encontrar aliados. Por lá, oferece séries da badalada Hulu e a programação da ESPN, canais que a Disney detém direitos. Aqui, estreitou laços com a Globo, uma de suas principais licenciantes. “É um relacionamento antigo”, diz Erick Brêtas, diretor de produtos e serviços digitais Globo. “São duas empresas da chamada mídia tradicional em jornada para se transformar em mediatech. Afinidades que ajudam a construir parcerias.” Na prática, Disney+ e Globoplay vão operar de forma independente, mas será possível assiná-las em conjunto e com desconto.

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Outras opções correm por fora com apelos específicos. A HBO mantém a tradição de produções de prestígio para adultos, conteúdo transmitido na TV linear e na plataforma HBO Go; o nacional Belas Artes à La Carte mira cinéfilos fãs de filmes cult; o Apple TV+ é quase um mimo da empresa do iPhone, oferecido gratuitamente a quem compra um de seus celulares.
Tamanha variedade tem levado o consumidor a escolher duas ou três plataformas que melhor se encaixam em suas necessidades — soma de valores que ainda fica abaixo, por exemplo, de um pacote básico de TV paga. Para garantir sua fatia no bolo, os serviços de streaming vêm investindo pesado no conteúdo, afinando o olhar para o público que melhor os define.

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Voltado para agradar a toda a família, o Disney+ reservou para 2020 um orçamento de 1,7 bilhão de dólares, boa parte destinada a séries superproduzidas — The Mandalorian gasta, por temporada, 100 milhões de dólares, valor equivalente ao despendido em Game of Thrones. No mês passado, o atual CEO, Bob Chapek, reorganizou toda a estrutura da Disney em prol de voltar as forças da empresa para os negócios no mundo virtual.

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Não fosse a pandemia, que atrasou diversos títulos, a Netflix gastaria neste ano 17 bilhões de dólares em originais, sendo 350 milhões de reais em produções brasileiras. Agarrada à liderança e de olho no futuro, a plataforma tem dado atenção especial ao seu principal usuário, a geração Z, composta de jovens de até 25 anos. “São ávidos consumidores de entretenimento, que estavam mal servidos de variedade e de histórias representativas de suas experiências”, diz Maria Angela de Jesus, diretora de originais da Netflix no Brasil. O resultado vem em números. A série americana teen (e divertidíssima) Eu Nunca…, sobre uma adolescente de origem indiana, por exemplo, somou 40 milhões de acessos em apenas um mês.

E a máquina não para. No ano que vem, a HBO vai lançar The Nevers, uma superprodução de ficção científica conduzida por Joss Whedon (de Os Vingadores), ambientada na Inglaterra vitoriana. A Amazon fará a versão seriada de O Senhor dos Anéis, direitos adquiridos por estonteantes 250 milhões de dólares. E a Netflix terá novas temporadas de sucessos como The Witcher e Stranger Things. Com tantas opções, a agenda do espectador é que vai sofrer no meio dessa disputa.

Com reportagem de Amanda Capuano

Publicado em VEJA de 18 de novembro de 2020, edição nº 2713

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