Asterix e Obelix fazem piada com portugueses em nova aventura
O 41º álbum leva os heróis gauleses ao território que hoje corresponde a Portugal para ajudar a resgatar um homem preso injustamente pelos asseclas de César
Desde que René Goscinny e Albert Uderzo criaram Asterix e Obelix, no fim dos anos 1950, funciona assim. Os irredutíveis guerreiros alternam aventuras na Gália, nas proximidades da aldeia da Armórica onde moram, com outras que assumem o formato de uma expedição ou viagem internacional. É uma das regras não escritas que acabou se perpetuando ao longo de mais de 60 anos.
Asterix na Lusitânia, o 41º álbum da famosa série de quadrinhos, faz parte da segunda categoria, em que Asterix e Obelix são enviados a um território estrangeiro ainda não visitado por eles. Escrita por Fabcaro e ilustrada por Didier Conrad, a obra leva os heróis gauleses ao território que hoje corresponde a Portugal para ajudar a resgatar um produtor de garum (molho ancestral, à base de peixe) preso injustamente pelos asseclas de Júlio César.
O ponto de partida para a aventura na Lusitânia nasceu de um detalhe discreto em O Domínio dos Deuses (1971). Nele, Goscinny e Uderzo haviam desenhado brevemente um escravo lusitano sem nome. Fabcaro e Conrad resgataram esse figurante anônimo e o transformaram no catalisador da nova história, batizando-o de Encerado — o sufixo “ado” acaba sendo o código para identificar a maior parte dos lusitanos. Conrad explicou que utilizou esse modelo visual de Uderzo como guia para desenhar os habitantes lusitanos.
Como era de se esperar, Asterix na Lusitânia traz o frescor de novos cenários, clichês turísticos carinhosos, caricaturas de personalidades e choques culturais divertidos sobre gastronomia e línguas estrangeiras — muitos deles bem conhecidos pelo público brasileiro. Na alça de mira de Fabcaro, o mais afiado dos roteiristas que substituíram o inclemente Goscinny, estão a “saudade”, a melancolia e a obsessão lusitana pelos bacalhaus.
Outra marca registrada das aventuras de Asterix e Obelix são as célebres participações especiais de figuras históricas e contemporâneas. Ao chegarem em Olisipo (Lisboa), os heróis gauleses se deparam com uma série de rostos familiares: ouvem o fado melancólico de uma fadista inspirada na lendária Amália Rodrigues; enfrentam o centurião Obraspóstumas, caricatura do comediante britânico Ricky Gervais; são acolhidos por Gama, uma carismática estalajadeira modelada à imagem da cantora luso-canadense Nelly Furtado; e ainda cruzam o caminho de um garoto de camisa vermelha número 7 jogando futebol na rua — cujo talento e drible dispensam apresentações.
O álbum também faz o resgate histórico Viriato, o pastor que virou guerreiro e liderou oito anos de resistência contra Roma — exatamente como Vercingetorix fez na Gália. A memória do herói ao longo do gibi ainda lembra um fato histórico curioso: o próprio Júlio César já tinha enfrentado os lusitanos em 60 a.C., dez anos antes de invadir a Gália. Na história, a trágica morte de Viriato, traído e assassinado enquanto dormia a mando de Roma, ganha um toque poético e divertido: para Fabcaro, foi ali que nasceu a saudade portuguesa. Toda essa traição ganha rosto no álbum com o personagem Mossafado, o típico colaborador mau-caráter.
Com uma tiragem inicial de 5 milhões de exemplares em mais de 19 idiomas e 25 países, o livro vendeu mais de 1,65 milhão de cópias só na França no final de 2025, tornando-se o álbum de maior sucesso comercial da franquia em duas décadas. Uma das chaves do sucesso está no encaixe de Fabcaro, roteirista que debutou no álbum anterior, A Iris Branca, na dupla com Conrad. O tom leve, cômico e irônico de suas histórias, a composição dos personagens e o resgate da obra clássica completam a receita.







