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A saga das mulheres à frente da resistência contra nazistas na II Guerra

Livro sobre o tema pode virar filme dirigido por Spielberg

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 4 jun 2024, 11h11 - Publicado em 25 mar 2023, 08h00

Elas escondiam revólveres em ursinhos de pelúcia e bananas de dinamite nas roupas de baixo. Aprendiam a fazer coquetéis molotov e arremessá-­los nos trens de carga alemães. Garotas com feições “arianas” que podiam se passar por não judias flertavam com nazistas — empanturrando-os de uísque, vinho e doces antes de matá-los a tiros. Quando as tropas da SS invadiram a Polônia, na eclosão da II Guerra, um grupo de mulheres judias, muitas delas mal saídas da puberdade, aderiu à luta armada e arriscou a vida para sabotar o regime. Daria um filme — e certamente dará. O diretor Steven Spielberg, que não costuma dar ponto sem nó, comprou os direitos do livro A Luz dos Dias — A História Não Contada da Resistência Feminina nos Guetos de Hitler, da canadense radicada em Nova York Judy Batalion, a quem encomendou o roteiro. Em entrevista a VEJA, instada a comentar a possibilidade de parar em Hollywood, Judy — cujo trabalho acaba de ser lançado no Brasil pelo selo Rosa dos Tempos, da Editora Record — sorri timidamente, cruza os dedos das duas mãos e sorri: “Tomara”.

O fio da meada puxado por ela é extraordinário, em capítulo pouco conhecido de um triste momento da civilização. A narrativa da guerrilha contra os invasores foi quase sempre masculina — e o que Judy faz é iluminar a extraordinária participação das mulheres. Ela demorou doze anos para finalizar a empreitada, embora fosse tema que tenha vindo do berço. A avó de Judy, Zelda, não lutou na resistência, mas fugiu da Polônia de modo espetacular. Atravessou rios a nado, se escondeu em um convento, flertou com o inimigo e foi parar em um campo de trabalho forçado da Sibéria antes de chegar a Montreal. “Minha bubbe era forte como um touro, mas perdeu o pai e três das quatro irmãs, que haviam permanecido em Varsóvia”, diz Judy. “Ela me contava essa história terrível todas as tardes enquanto cuidava de mim depois da escola, com lágrima e fúria nos olhos.”

CORAGEM - Jovens com roupas e corte de cabelo como os das cristãs (à esq.) e um grupo de um dos movimentos de militância: a proeza de enganar os inimigos
CORAGEM - Jovens com roupas e corte de cabelo como os das cristãs (à esq.) e um grupo de um dos movimentos de militância: a proeza de enganar os inimigos (Museu da Casa dos Combatentes do Gueto; Arquivo Fotográfico Yad Vashem/.)

A herança familiar, a um só tempo inspiradora e repressora, impedia Judy de avançar no relato — até que, em 2007, na Biblioteca de Londres, ela pôs as mãos nas páginas amareladas e nos ácaros de uma obra de 1946, escrita em iídi­che, Freuen in di Ghettos (Mulheres nos guetos), uma antologia de 185 páginas de aventuras recheadas de progesterona, com centenas de nomes e pistas. Como aprendera iídiche na infância, fez-se luz em A Luz dos Dias. As heroínas eram membros de movimentos juvenis como o Li­berda­de (Dror) e o Guarda Jovem (Hashomer Hatzair) de simultânea orientação socialista e sionista. Tinham entre 15 e 20 e poucos anos e trabalhavam como mensageiras entres os guetos poloneses — eram mais de 400 — entrando e saindo disfarçadas. Eram as kashariyot, termo que, em hebraico, significa “conectoras”.

A LUZ DOS DIAS, de Judy Batalion (tradução de Marina Vargas; Rosa dos Tempos; 614 páginas; 129,90 reais e 90,90 reais em e-book)
A LUZ DOS DIAS, de Judy Batalion (tradução de Marina Vargas; Rosa dos Tempos; 614 páginas; 129,90 reais e 90,90 reais em e-book) (./.)

Transportavam livros, jornais, cartas, panfletos — e também armas. E só puderam fustigar os opressores por serem mulheres. Os homens que fingiam ser cristãos logo eram descobertos — bastava a polícia exigir que baixassem as calças para constatar que eram circuncidados. Elas, evidentemente, não tinham essa marcação anatômica. Como às meninas judias era dado estudar em escolas públicas na Polônia — os meninos iam para instituições de orientação religiosa —, falavam o polonês sem sotaque e sabiam os trejeitos das amigas cristãs. Por fim, como os alemães eram machistas até o último fio de cabelo, eram insuspeitas: como é que aquelas moças, dóceis e delicadas, poderiam ser tão bravas? “Elas sabiam que não venceriam a guerra, mas a pequena batalha do cotidiano era um imenso incentivo, por fazer justiça”, diz Judy.

Muitas daquelas batalhadoras, ou de seus descendentes, vieram ao Brasil, onde fundaram escolas, centros de estudo e de militância política no pós-guerra. A trajetória daquelas jovens merece ser sempre lembrada, para que a tragédia nazista não se repita. Não fossem as moças, é possível que levantes como o do Gueto de Varsóvia, que em abril completa oitenta anos, tivessem fracassado. Elas tinham chutzpah — a palavra em iídiche que pode ser traduzida como audácia ou insolência.

Publicado em VEJA de 29 de março de 2023, edição nº 2834

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