A reinvenção do samurai: mostra no Museu Britânico põe em xeque a figura do guerreiro japonês
Ele nem sempre andou armado até os dentes
Sempre pronto para a guerra, com cara de mau, a cortar o ar com a katana, a espada de lâmina curva com um só gume, o samurai é personagem que atravessou a história — desde o princípio, no Japão feudal, em torno do ano 1100, como servidor do império, até os dias de hoje. O Darth Vader, sim, o Darth Vader de Star Wars, bebe de um bélico senhor de armas oriental, “admirado” por George Lucas. Um dos protagonistas do badalado videogame Assassin’s Creed Shadows é Yasuke, um guerreiro sanguinolento. É figura marcada na história da civilização como símbolo de força, valentia — por vezes justo, por vezes não, mas permanentemente violento. Uma extraordinária exposição no Museu Britânico, em Londres, mal abriu as portas e tem provocado alvoroço.
Samurai, em cartaz até 4 de maio, reconstrói parte do que se imagina dos combatentes de elite — e não deixa pedra sobre pedra. São mais de 280 peças, entre vestuário, armas, fotos e xilogravuras. É bonito (com destaque para um pergaminho de 1811, delicado, a demonstrar a destreza dos moços), em passeio pelo tempo — mas é sobretudo memorável pelos estragos que provoca, ao demolir concepções pregadas no imaginário coletivo. “Os samurais há muito tempo cativam pessoas em todo o mundo, mas muito do que sabemos deles é moldado por mitos e lendas”, diz Nicholas Cullinan, diretor do museu. “A exibição permite explorar a vida real desses homens e mulheres notáveis.” Mulheres? Eis um dos lugares-comuns postos em xeque.
Por volta de 1615, em tempo de relativa paz e bonança, o grupo mercenário evoluiu para uma pequena nobreza rural — e seus membros viraram funcionários do governo, acadêmicos e mecenas. Naquele momento, metade da classe era feminina, e embora elas não costumassem lutar, representavam a espinha dorsal da elite. Antes um pouco, em torno de 1200, a samurai mais respeitada — e agora devidamente iluminada em Londres — foi Tomoe Gozen. Conta-se que ela decepou a cabeça de um parceiro de briga, que tentou capturá-la em troca de resgate e se deu mal.
Descobre-se, pelos corredores londrinos de iluminação dramática, que, durante grande parte de sua existência, os samurais — apesar da temível reputação que adquiriram no período medieval, e não há como ficar imune à imagem poderosa da armadura Domaru-gusoku, do século XVIII — não lutavam. Eles nem sequer eram chamados de samurais, palavra derivada do japonês que significa “aqueles que servem”. Nomes mais comuns eram musha e bushi. Mesmo em tempos de confrontos, eram artistas. Viviam mais em tatames e casas de chá do que no front. Eram excelentes bombeiros. Manipulavam com mais destreza pincéis do que adagas. No tempo do xogunato de Tokugawa, entre 1603 e 1868, faziam amor, e não guerra. Em 1871, quando o serviço postal japonês foi estabelecido à semelhança do seu equivalente britânico, rápido e pontual, muitas das agências foram confiadas a antigos samurais, que, a essa altura, já haviam se tornado uma classe burocrática, sem graça, mas vital.
O grande trunfo da esplêndida antologia é a desmistificação. Longe de evitar a complexidade do samurai, cuja imagem foi distorcida e apropriada por sucessivas gerações de japoneses e estrangeiros, os curadores se deleitam em brincar com concepções errôneas e, sutilmente, esclarecê-las. Os próprios cavaleiros, soldados — como quer que os chamemos —, trataram de ir contando meias-verdades em relatos exagerados. Até no Japão moderno, que prefere não os cultuar por cultuar, o trabalho do Museu Britânico tem sido aplaudido com entusiasmo, como quem acrescenta páginas novas a enciclopédias amareladas.
Os samurais já não existem, proibidos pela legislação rabiscada em 1876, durante o período de reestruturação da era Meiji. Porém, é fundamental destacar, com ênfase, nunca saíram de cena, hoje em mangás, ontem em filmes (alguns maravilhosos, clássicos na essência, como os de Akira Kurosawa). Durante a Segunda Guerra Mundial, os pilotos kamikaze eram retratados empunhando espadas samurai, embora, na prática, fossem demasiado volumosas para caberem nos minúsculos cockpits das aeronaves que iam ao solo.
A partir de agora, os samurais talvez passem a ser vistos por meio de camadas escondidas, até então apenas parcialmente iluminadas, ao gosto de fregueses que pediam drama. Era tudo mentira, então? Não exatamente, longe disso, mas é fascinante perceber como a arte pode mudar a história. As nuances são imperativas, e por trás de um grito de raiva pode brotar um sorriso maroto. É um pouco como sugere o escritor Junichiro Tanizaki (1886-1965), clássico intérprete da estética japonesa, de cuja pena só saía elegância: “Se não fossem as sombras, não haveria beleza”. Eis os samurais.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984





