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‘A Droga da Obediência’: O trabalho árduo — e as novidades — por trás do filme

Após 20 anos de tentativas, adaptação enfim sai do papel com roteiro de Luca Paiva Mello, que traz a história para os tempos de hoje

Por Thiago Gelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 23 dez 2025, 12h57 • Atualizado em 24 dez 2025, 11h21
  • Em 1984, aos 42 anos, o paulista Pedro Bandeira publicou A Droga da Obediência com total fé no material, mas incapaz de prever que chegaria aos 83 com mais de 31 milhões de livros vendidos. Nas mais de quatro décadas desde então, o sucesso daquela primeira aventura infantojuvenil abriu alas para mais cinco romances da série Os Karas, a fez se tornar leitura obrigatória nas escolas e foi essencial para a formação de jovens leitores das gerações X, Y e Z — além da Alpha, atualmente. Para coroar tamanho legado, Bandeira agora testemunha a concretização de um sonho: a transferência de seus personagens para as telas. No futuro próximo, Miguel, Crânio, Calú, Magrí e Chumbinho serão interpretados por atores de carne e osso no filme Os Karas em A Droga da Obediência, produzido pela Conspiração Filmes junto à Globo Filmes e à Scriptonita Films, cujo fundador, Luca Paiva Mello, é também roteirista do longa-metragem junto de André Catarinacho e Bruna Skrzypek.

    O feito é resultado dos esforços de Mello junto a Rodrigo Bandeira de Luna — filho do escritor — e a Luciano Gurgel, sócios à frente da Pedro Bandeira Educação e Entretenimento (PBE2), administradora exclusiva do licenciamento da propriedade intelectual de Bandeira. 

    Luciano Gurgel, Pedro Bandeira e Rodrigo Bandeira de Luna
    Luciano Gurgel, Pedro Bandeira e Rodrigo Bandeira de Luna (PBE2/Divulgação)

    Primeiro, em meio à pandemia do Covid-19, Rodrigo aconselhou o pai a criar conteúdo para as redes sociais, o que hoje faz regularmente para seus mais de 100.000 seguidores. Pouco depois, Bandeira surgiu jubilante, pois uma proposta de adaptação da obra havia surgido por iniciativa do ator e diretor Caio Blat. A semente, porém, não germinou. Dada a decepção, Rodrigo decidiu tomar as rédeas: “Falei: ‘Pai, acho que a gente precisa ser mais ativo nisso. Estamos muito no ponto passivo dessa história, esperando alguém vir procurar a gente e mandar um contrato que só assinamos e depois ficamos nos perguntando como está’. Aí falei com um amigo meu, que é uma pessoa da área de cinema, que me recomendou a Scriptonita e o Luca” — responsável por sucessos como a série teen Julie e os Fantasmas (2011 – 2012). A partir disso, o projeto de adaptação foi crescendo, assim como ideias para o teatro e para produtos educacionais. Segundo Rodrigo, o mercado ficou em polvorosa com a iniciativa. 

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    Atestado o potencial comercial da ideia, Luca Paiva Mello e sua equipe começaram a esboçar a adaptação. O projeto foi apresentado às coprodutoras Conspiração e Globo a partir da primeira versão do roteiro — que o cineasta descreve, na verdade, como quinta, devido a múltiplas revisões prévias. Atualmente, o projeto é retrabalhado a partir de notas de Bandeira, mas o autor garante estar mais do que satisfeito com o resultado: “Estou exultante. Não é trivial adaptar uma obra dos anos 1980 para os dias de hoje, ainda mais com a velocidade em que as mudanças têm ocorrido. Dou minhas sugestões, parâmetros e contexto no sentido de apoiar o trabalho da equipe, que é de primeira linha”, disse a VEJA.

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    As alterações por trás do filme

    Ainda assim, as mudanças são inevitáveis. Para começo de conversa, o filme se passa nos dias de hoje, muito diferentes da ambientação oitentista na qual o romance foi escrito. “As nossas observações em cima da obra foram muito em cima das mudanças de comportamento, costumes e consumo das últimas quatro décadas. Tivemos que fazer adaptações de equidade de gênero e de diversidade, entre outras questões importantíssimas. Naquele momento, por exemplo, não existia internet nem celular”, pontua o roteirista. Mello garante, contudo, que preservar o suspense e a essência da trama são prioridades irrevogáveis, assim como o equilíbrio entre o apelo para o público jovem e o para adultos que cresceram junto dos livros, para os quais ele promete múltiplos “easter eggs”. Além disso, os conselhos diretos de Bandeira servem como “metrônomo conceitual”, diz o roteirista, para que o caminho jamais se perca. 

    Em meio aos últimos toques do roteiro, o filme não encontrou ainda seu elenco, mas Mello já pensa nas filmagens. Apesar do teor fantástico, a superprodução não deve exigir orçamento colossal. “Estamos pensando em torno de 18 a 20 milhões, que considero um valor muito bom para o tipo de história que queremos contar. A escola é uma arena importante, assim como a Pain Control. Não temos 150 locações”, elabora.

    Já Rodrigo e Luciano, enquanto celebram enfim a produção do filme, também a encaram como “a ponta do iceberg” — para o futuro do licenciamento da marca Pedro Bandeira, mas também para o setor cultural nacional, no qual notam um gigante potencial para criação de valor e negócios. “Eu acho que isso não ocorre mais frequentemente porque o povo se acostumou a falar mal do Brasil e a se acomodar na ideia de que ‘aqui nada dá certo mesmo’”, opina Rodrigo. Para além de seus vilões cartunescos, veja só, os Karas agora querem combater o chamado “complexo de vira-lata” e índices de leitura que caem a cada ano. 

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    Para Rodrigo, questões complicadas da atualidade são a disseminação de tecnologias — “o jovem entediado que pegaria um livro, hoje esbarra no celular e passa duas horas olhando vídeos de um urso no Canadá” —, mas também o legado da pandemia, que afastou jovens das escolas, e do governo Bolsonaro: “O que ele podia boicotar, boicotou”, diz em referência a cortes de verbas para livros didáticos entre 2018 e 2022. “Ainda assim, não somos budistas e não queremos a volta ao passado”, confessa, “acreditamos que o caminho natural da obra literária a leva para o audiovisual, para o licenciamento, para parques temáticas e coisas mais. Não fazer o que fazemos seria uma perda de oportunidade muito boba”.

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