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É proibido proibir: o estilo dos anos 1960 está de volta na moda

Com minissaias, penteados altos e muito delineador nos olhos, a década retorna à cena como manifesto de liberdade

Por Simone Blanes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 mar 2024, 08h00 | Atualizado em 3 jun 2024, 17h25
É proibido proibir: o estilo dos anos 1960 está de volta na moda Priorize VEJA no Google

Lá no finalzinho da década, o homem chegou à Lua. Estados Unidos e União Soviética estiveram a um passo da guerra nuclear. O rock n’roll começou com os embalos de Elvis Presley para desaguar nos Beatles. No corpo e na alma, as mulheres deram um grito de liberdade. Não à toa, a década de 1960 tem um rótulo indelével: revolucionária. Na moda, como manifesto dos humores, não podia ser diferente. Os “anos rebeldes” botaram a alta-costura e o recato de lado para dar espaço à ousadia nos trajes, penteados e maquiagens. É inspiração que marcou época e, vira e mexe, renasce como seiva e droga para as novas gerações. Se é o caso de mudar o sentido, andar na contramão, não há ponto mais adequado no túnel do tempo do que aquele período a um só tempo charmoso e incômodo, em que foi proibido proibir.

NAS REDES - Ariana Grande: musas da geração Z aderem aos looks sessentistas
NAS REDES – Ariana Grande: musas da geração Z aderem aos looks sessentistas (@r.e.m.beauty/Instagram)

E, então, cá estamos de volta aos 60. Um dos símbolos da transformação no visual e na mentalidade que retorna às ruas e passarelas é a minissaia. Criada pelo estilista francês André Courrèges e popularizada pela moderninha britânica Mary Quant como marca do empoderamento da mulher, ela nunca saiu totalmente de cena, é verdade, mas ganha holofote nesta temporada. Peças um palmo acima do joelho imperam em desfiles — Marc Jacobs, Valentino e Versace, com o delicado vestido branco de Kendall Jenner, usaram e abusaram do recurso — , além de festas e filmes.

Outra característica que voltou a dar as caras com a pegada de sessenta anos atrás são os cabelos. Ora curtos, como os da vanguardista Twiggy, ora armados e imponentes, como os da fabulosa Brigitte Bardot. Eles traduzem, agora em 2024, a feminilidade até o último fio, simples assim. Nas coleções, nos tapetes vermelhos e nas redes sociais, o look dos sixties é repaginado para tornar as mulheres ainda mais poderosas — e sem medo de gostar de rosa, usar laços e babados e passar o delineador nos olhos.

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NA TELA - A cinebiografia de Priscilla Presley: filme traz desfile de peças da época e também manifesto de uma geração
NA TELA - A cinebiografia de Priscilla Presley: filme traz desfile de peças da época e também manifesto de uma geração (Sabrina Lantos/Sony Pictures/.)

A bem da verdade, o cinema puxou a tendência em produções como Era Uma Vez em… Hollywood, de 2019, antes da pandemia, e Barbie, do ano passado, protagonizados por Margot Robbie, atriz sensação do momento, embora desdenhada no Oscar, nos papéis de dois ícones fashion daquela época: a atriz Sharon Tate (1943-1969), em seus minivestidos estilo Pierre Cardin e botas de cano longo, e a boneca Barbie, de saia rodada e cintura marcada. Mas o que melhor representa essa ode sessentista é Priscilla, longa que traz um figurino de peças-chave (a maioria da Chanel) com a atriz Cailee Spaeny desfilando os cortes daquela década, dos modelos rodados em tons pastel — os preferidos do marido de Priscilla Presley, Elvis — às estampas que a diva só pôde usar depois de se divorciar e se libertar da prisão estética imposta pelo companheiro controlador. No filme de Sofia Coppola, as vestimentas retratam os anseios de uma geração.

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Diferentemente de outras tendências, que somem tão rápido quanto aparecem, em sucessivas ondas, o estilo que revive a rebeldia do paz&amor, mas com um tanto de guerra, tem tudo para perpetuar-se, em eterno retorno. Prova disso é um de seus desdobramentos, apelidado de Coquette Aesthetic, que flerta com os visuais elegantes, lúdicos e delicados, repletos de laços e pérolas, além dos delineadores tipo gatinho e dos cílios de boneca, que marcaram época — o fenômeno angariou 6 bilhões de visualizações no TikTok.

PASSARELAS - Renascença: a modelo Kendall Jenner de minivestido para a Versace
PASSARELAS - Renascença: a modelo Kendall Jenner de minivestido para a Versace (./Divulgação)
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Essa estética nostálgica é hoje também a favorita de musas da geração Z, como Ariana Grande e Lana Del Rey, justamente por trazer uma pitada de briga contra tudo aquilo que está aí, em defesa do feminino, com estardalhaço. “É um jeito de assumir o lado mais ‘mulherzinha’, o que não deixa de ser também uma libertação”, diz a figurinista Gogoia Sampaio, que trabalhou na série Anos Rebeldes, da TV Globo. Os anos 1970, tampouco os 1980, que gostam de bater à porta, não têm esse mesmo potencial transformador. O recado ecoa um preceito que já fez história: estilo não é lei nem camisa de força. Disso já nos libertamos nos anos 1960, ainda bem.

Publicado em VEJA de 1º de março de 2024, edição nº 2882

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