Carta ao Leitor: Jovens dilemas
Pouco a pouco, a geração Z vai assumindo sua vez como motor do mundo adulto
Sempre representou um desafio traçar um quadro preciso sobre os hábitos e anseios da juventude. No caso da geração Z, como são chamados os nascidos entre 1997 e 2012, o dilema é ainda maior. Enquanto seus pais e avós conviveram com um mundo onde não existia internet, eles nasceram dentro de um planeta conectado. Esse fator desencadeou uma série de mudanças comportamentais, sendo que o uso intensivo dos celulares é responsável por uma boa parte delas. Os aparelhos viraram uma extensão da vida. Assim, a TV acabou sendo trocada pelo TikTok, o telefone pelo WhatsApp e a carreira de influencer virou objeto de desejo. Essa turma também é chamada de filhos da ansiedade. É gente que se acostumou a satisfazer seus desejos com um clique — e não lida bem com qualquer tipo de espera ou de frustração.
O momento de protagonismo deles é cercado por outras visões negativas. Dizem os clichês que se trata de um grupo apático, de propensão a uma vida profissional errática, ou imatura, e sem ambições quando o assunto são as realizações pessoais. Novos estudos, contudo, estão provando que há muitos mitos na percepção sobre esses jovens, e uma falta de compreensão sobre os fatores, sobretudo econômicos, que geram pessimismo em muitos deles. O mais novo retrato disso é a pesquisa Life Aspirations 2026, do instituto Ipsos. Ela revela que a geração Z no Brasil mantém fortes aspirações por segurança material e profissional, embora sofra com o fantasma da frustração. Para os jovens brasileiros dessa faixa etária, ter o próprio imóvel é a maior prioridade de sucesso (65%), seguida de perto pela busca de um emprego estável em tempo integral (58%), enquanto apenas 19% apontam ter filhos como um marco de realização. O bloqueio para alcançar essas metas gera um alto custo emocional: no país, mais da metade dos jovens afirma que ficaria triste se nunca conquistasse um trabalho estável (56%) ou a casa própria (54%).
Em comparação com os dados mundiais, observa-se uma ligeira inversão de prioridades, mas a mesma vulnerabilidade psicológica. Na média mundial da geração Z, o emprego estável é mais valorizado (66%) do que a casa própria (56%), e o desejo de tornar-se pai ou mãe atinge 32%. Ainda assim, a ansiedade patrimonial é compartilhada: globalmente, 56% dos jovens da gen Z afirmam que se sentiriam tristes se nunca tivessem um imóvel próprio. Tanto no país quanto no exterior, os jovens anseiam pela mesma estabilidade das gerações anteriores, mas enfrentam expectativas de conquista muito mais reduzidas. VEJA produziu ao longo de sua história uma série de capas sobre os anseios da juventude. Reportagem desta edição segue essa tradição. É muito importante compreender o que se passa nos corações e mentes desse segmento da população. Pouco a pouco, a geração Z vai assumindo sua vez como motor do mundo adulto.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012







