A mágica dos monstrinhos: como a força do Pokémon resiste há três décadas
Eles seguem atraindo a atenção de fãs de várias gerações e impulsionando os lucros da Nintendo
Aos trinta anos completados em fevereiro, a mania do Pokémon já não é mais brincadeira de criança. Estima-se que entre 150 e 200 milhões de pessoas no mundo interajam com algum jogo da franquia dos pocket monsters — monstros de bolso, em tradução livre. Essa base de jogadores está mais rachada do que nunca entre veteranos que cresceram com o Game Boy e a nova geração que estreou no Nintendo Switch, cujo modelo mais recente, o Switch 2, foi lançado em meados do ano passado. É uma febre que não passa e, provavelmente, demorará a passar.
A força dos bichinhos — cujo representante mais popular é o Pikachu, uma espécie de ratinho elétrico — tem se mostrado inquebrantável. Foram eles que ajudaram a impulsionar tanto as ações da Nintendo quanto as vendas do Switch 2. A empresa japonesa utiliza a franquia para aquecer a venda de consoles em períodos de estabilização. Pokémon Pokopia, um simulador de vida com elementos de construção, atraiu um público mais amplo, gerando aumento de 18% nas vendas do hardware nas primeiras duas semanas do mês e elevando as ações da companhia em 10% em um único dia.
O cerne desse universo sempre esteve nos jogos, especialmente nos consoles da Nintendo. Em 1996, Pokémon Red e Pokémon Green não apenas deram início à onda, como revolucionaram o Game Boy com nova dinâmica: capturar, colecionar e trocar criaturas. Foi o despontar de um ecossistema, chamemos assim, que conquistaria o Ocidente pelo anime e pelas cartas colecionáveis — e garantiu longevidade que poucas franquias alcançam. A progressão e a evolução sempre alimentaram o sistema de batalhas e trocas.
No jogo recém-posto por aí, o Pokopia, deu-se um salto. Não há batalhas nem sequer humanos. O jogador assume o papel do metamorfo Ditto e interage com outros Pokémon para reconstruir o ambiente ao redor, após o desaparecimento dos treinadores. O objetivo, portanto, é nutrir o mundo abandonado, tornando-o habitável para as criaturas e seus parceiros perdidos. A mudança de rota é louvável. “Trata-se de um sinal claro de que os desenvolvedores entendem que a franquia precisa se reinventar para continuar relevante e percebem que o público de Pokémon hoje é muito diverso”, diz Reinaldo Ramos, vice-coordenador do curso de jogos digitais da PUC-SP.
A novidade agradou — e muito. No site especializado Metacritic, Pokopia recebeu a maior nota da história da franquia: 89/100 entre especialistas e média de 8,7 entre o público geral. A liberdade criativa na reconstrução do universo lúdico gerou uma inédita comunidade, com jogadores exibindo nas redes suas criações e as combinações necessárias para atrair cada Pokémon. Não faltam relatos de quem comprou o Nintendo Switch 2 motivado pelo lançamento do game.
O caráter de farm simulator — em que se planta, colhe, cuida e constrói — faz de Pokopia uma brincadeira agradável. “É o chamado cozy game, aconchegante, sem violência ou estresse”, diz Raquel Segal, criadora de conteúdo de games. O estilo funciona como antídoto em tempos tão nervosos, de guerras e disputas ideológicas. Foi assim, por exemplo, com o Animal Crossing durante a pandemia. “Ainda bem que esse jogo não tem batalha, e é por isso que está fazendo tanto sucesso e furou a bolha. Até quem não gosta de Pokémon está interessado em Pokopia”, diz Raquel.
Longe de representar uma virada completa — afinal, os próximos lançamentos Winds e Waves retomam as batalhas —, o novato do catálogo já soma 2,2 milhões de cópias em quatro dias. Quando uma marca consegue atravessar gerações, firme, forte e feliz, ela deixa de ser apenas um produto e passa a ser parte da cultura popular. É o que explica por que Pokémon continua relevante mesmo nas portas da maturidade, um jovem adulto. O Pikachu, e por que não?, é o Mickey Mouse de nosso tempo de incertezas.
Publicado em VEJA de 20 de março de 2026, edição nº 2987





