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A hora certa para investir: relógios de grifes já são indicados como boa aplicação

Alçados à condição de joia, inclusive no preço, eles despontam na prateleira dos itens de luxo pela alta valorização

Por Caio Saad Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 fev 2026, 08h00 •
  • A história dos relógios de pulso se entrelaça com o poder desde seu advento, no século XIX. Acredita-se que o primeiro modelo tenha sido feito por encomenda de Carolina Murat, a irmã de Napoleão Bonaparte, à época Rainha de Nápoles, que ambicionava sacudir o status quo da moda: até aquele momento, eles eram pendurados no colar, e ela pediu ao renomado relojoeiro suíço Abraham-Louis Breguet (cujo sobrenome até hoje batiza uma das mais desejadas marcas) que produzisse algo como uma joia para exibir no braço. A popularização mesmo veio no século XX, sob o impulso de grandes figuras como Santos Dumont, que procurou o amigo francês Louis Cartier para que desenhasse um exemplar para substituir o que carregava no bolso e assim poder conferir as horas enquanto pilotava — história que acabou inflada a ponto de, no Brasil, o pioneiro aviador ganhar a equivocada fama de inventor do relógio de pulso. A saga desses objetos que atiçam o ímpeto humano pelo consumo ganhou capítulo à parte ao serem usados sob os holofotes pelos atores que interpretaram no cinema o espião James Bond — do Rolex Submariner de Sean Connery, em Goldfinger, ao Omega Seamaster de Pierce Brosnan, em GoldenEye.

    Verdade que a onipresença do celular, que informa as horas a um clique, fez muita gente abandonar o velho relógio, mas o mercado resiste, e em curva ascendente, em um nicho para lá de lucrativo: o do alto luxo. Atenta ao movimento, a consultoria McKinsey soltou o relatório The State of Fashion para 2026, enfatizando que, mais do que uma peça para ter no pulso, relógios de grife devem ser vistos como investimento. “Na China e nos Estados Unidos, onde apesar da incerteza econômica as pessoas ainda estão interessadas em comprar artigos de luxo, a venda de relógios se encontra no topo”, informa o documento, que ressalta o fato de, em geral, terem seu valor preservado diante dos sacolejos do mercado de ações e de períodos de recessão. Não que sejam imunes de todo às crises, mas certamente se revelam aposta menos volátil do que outras. Em 2022, durante a pandemia, enquanto a bolsa recuava 19%, esses relógios desvalorizaram 8%. Normalmente vendidos com rapidez, eles também contam com seu termômetro — o Bloomberg Subdial Watch Index, que acompanha a variação de preços dos cinquenta modelos mais negociados na profícua prateleira de segunda mão, também explorada pelas próprias empresas à frente das grifes.

    TRIO DE PESO - Patek Philippe, Rolex e Audemars Piguet (da esq. para a dir.): exemplares disputados nas lojas que ficam mais caros conforme envelhecem
    TRIO DE PESO - Patek Philippe, Rolex e Audemars Piguet (da esq. para a dir.): exemplares disputados nas lojas que ficam mais caros conforme envelhecem (//Divulgação)

    Ao longo da última década, um levantamento da consultoria Knight Frank observou a flutuação das cifras de itens que costumam movimentar o escaninho do luxo: o de diamantes subiu 13% e o de carros antigos, 118%, enquanto o de relógios disparou 147%. “E os valorizados suíços seguem na dianteira”, afirma Robertino Altieri, CEO do portal especializado WatchGuys. Nesse rol, os que aparecem como investimento mais seguro no longo prazo são Patek Philippe, Rolex e Audemars Piguet, que receberam dos apreciadores o apelido de The Big Three (os três grandes). Desde os anos 1970, o Rolex de aço inoxidável, por exemplo, nunca perdeu valor. E eles costumam envelhecer bem: entre os chamados modelos de entrada (para iniciantes, digamos assim), o Rolex Oyster Perpetual Turquoise Celebration tem preço sugerido pelo fabricante na casa de 35 000 reais e, na revenda, sai por uns 95 000 reais. Há modelos na casa dos milhões.

    Um empurrão decisivo para a alta-relojoaria veio justamente daqueles tempos de marasmo da pandemia, quando a fatia mais abastada da população congelou os gastos em viagens e restaurantes e os transferiu para itens de luxo mais duráveis. Também os influenciadores do ramo e as celebridades que aderem a tão caro mimo ajudam a sedimentar as aspirações por ele no imaginário coletivo. Uma das razões para preços tão elevados tem a ver com uma gangorra de oferta e demanda comum às grifes: há edições de tiragem limitada e, mesmo com a peça disponível, é preciso ser cliente fiel e bem relacionado para conseguir comprá-la. Outro fator que faz inflar os valores são os materiais empregados — quando o diamante entra em cena, a casa decimal muda.

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    Mesmo com tanto apelo, como em qualquer investimento que embute risco, toda a cautela é pouca. “É preciso observar que são certas marcas que têm um histórico sólido de manutenção ou aumento de seu valor ao longo do tempo”, pondera Sergei Grechkin, diretor de estratégia e risco da gestora Cayros Capital, que recomenda olhar o relógio, em primeiro lugar, como item de colecionador. No animado mercado de usados, são ainda levados em consideração o estado de conservação e a raridade. Às vezes, custa para o valor subir. “Para investidores que não se importam em ter o capital imobilizado por tempo indeterminado, pode ser boa pedida”, afirma Lewis Crompton, da plataforma de educação financeira STARTrading, autor de um estudo sobre o tema. “Relógios armazenam riqueza e protegem o dinheiro contra a inflação, mas, ao contrário de imóveis, não podem gerar renda imediata”, adiciona. Palavras que valem ser ouvidas com atenção, claro. Mas, a bem da verdade, quem costuma comprar um relógio desses sabe qual a hora certa para realizar o lucro.

    Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983

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