“A dor virou propósito”
Rayssa Paiva, 25 anos, fala do acidente que levou à amputação de uma perna e de como achou novo rumo para a vida
O dia 15 de dezembro de 2024 mudou minha vida. Na véspera, encontrei um amigo que não via há mais de uma década, e ele me convenceu a ir de moto de Eunápolis, minha cidade natal, na Bahia, a Porto Seguro. Não gostei muito da ideia — meu pai morreu quando eu tinha 7 anos em um acidente justamente de moto. Mas havia recém-terminado um namoro e decidi me abrir à aventura. Já na saída, o alertaram a não correr na estrada, e ele prometeu que por nada o faria. Não cumpriu. De repente, estávamos em alta velocidade, e eu na garupa, desesperada. Não deu outra: colidimos com força total com um carro. Voei mais de 60 metros, caindo em uma ribanceira. Tentei me levantar, até me dar conta: estava completamente machucada. O maior choque foi perceber minha perna esquerda dilacerada, com fratura exposta no joelho. A ambulância chegou depois de uma hora, era a única atendendo a região, e fui levada ao hospital. Que era grave, não havia dúvida. Só não tinha ideia do que me aguardava.
Fui submetida a uma série de cirurgias. Meu amigo não resistiu aos ferimentos e morreu, o que eu só descobri mais tarde. Minha família tentava me proteger. Sentia uma dor intensa. Vendo o tamanho do meu sofrimento, médicos e enfermeiros que cuidavam de mim também choravam. Não passou muito tempo, e me contaram que eu havia perdido o joelho. A saída seria juntar o osso da tíbia com o fêmur, o que me tiraria a mobilidade da perna, que àquela altura estava gravemente infeccionada. Pensar numa existência assim parecia insuportável. Sempre fui ativa, independente, fiz esportes e gostava de viajar. Comecei então a cogitar a amputação. Fiz uma lista de prós e contras e tomei a dura decisão. Fui contar à minha família, que não aceitou. Só entenderam quando expliquei que, a cada limpeza dos ferimentos, morria um pouco por dentro. Aquilo acabaria comigo. Em questão de dias, estava sem a perna. Estranho dizer, mas o baque veio junto com uma sensação de alívio.
No começo, não queria olhar para baixo e encarar o que havia perdido. Foram quase três meses no hospital antes de receber alta e dar início à maratona de reabilitação. Era como se fosse uma criança de novo. Precisei reaprender a andar e voltar a ter força no abdômen para poder sentar. Tive até de ser ensinada a cair, para evitar que me machucasse no caso de perder o equilíbrio. Em meio a dias sombrios, uma coisa era certa: tinha vontade de viver. Fui uma aluna disciplinada na fisioterapia, onde encontrava com outros amputados e notava que era possível reaver a independência. Um dia, resolvi contar minha história nas redes, para mostrar que estava me recuperando, e o vídeo viralizou. Formou-se a partir dali uma corrente de solidariedade — consegui inclusive o dinheiro para a prótese em uma vaquinha on-line. E passei a receber relatos de gente que lidava com a mesma realidade. A criação de uma comunidade na internet me ajudou a melhorar. Assim virei influenciadora e embaixadora de uma empresa global de próteses, transmitindo o que aprendi até aqui.
Chegar a esse ponto foi uma luta. Precisei assimilar que aquela de antes do acidente não existia mais, mas que isso não era o fim da minha história. Acompanhada por uma psicóloga e sem nunca perder a fé, achei novo sentido para a vida. Percebi que eu, que nunca tinha sido feliz com minha aparência, começava a fazer as pazes com ela. Escrevi sobre isso em um post que chegou a 16 milhões de visualizações. Inspirada pelos profissionais que cuidaram tão bem de mim, decidi trocar o curso de psicologia pelo de fisioterapia. A presença virtual também me motiva. Sei que há desinformação sobre casos como o meu: ninguém sabe se é normal sentir dor após uma amputação e quantas próteses são testadas até uma funcionar. Não há um dia em que uma pessoa que perdeu uma parte do corpo esqueça o que aconteceu. Nada, porém, limita meus sonhos. Transformei a dor em propósito e sigo em frente sem olhar para trás.
Rayssa Paiva em depoimento a Paula Freitas
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011







