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Por Walcyr Carrasco
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Puxão de orelha digital

A inteligência artificial impressiona, mas é a derrota da ficção

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
26 mar 2023, 08h00

Surgiu o programa de Inteligência Artificial para textos. É o ChatGPT. À primeira vista, impressiona. Ele escreve textos, chega a inventar nomes de personagens e cria situações. Só é preciso digitar o pedido, o tamanho e o tema para que ele escreva uma história original. Nas áreas médica, jurídica e acadêmica, nas quais muitos textos têm formatos próximos, já é um estouro. Mas em ficção? Soube que há livros no mercado americano escritos inteiramente por IA! Um autor está acostumado a ser tratado como um ser único no mundo, uma espécie de maravilha da humanidade (assim como enxadristas, já derrotados pelo computador). Mas o mundo anda, não anda? Fiquei curioso e instalei o tal Chat no meu laptop. Fiz tudo como me ensinaram. Segui todas as regras, menos uma, que eu não conhecia. Já falarei dela. Bem… eu quis testar os limites da IA. Dei um tema provocativo. Muito provocativo. Pedi para escrever uma história infantil sobre um menino que batia na mãe (jamais escreveria esse texto, só queria ver como a IA se sairia). A resposta: “Desculpe, não é apropriado ou ético escrever uma história que promova ou normalize a violência doméstica. Como um modelo de linguagem, minha função é fornecer informações úteis ou educativas para meus usuários, sempre mantendo o respeito e a ética. Sugiro que pense em outro tema para a história, que possa ser mais positivo e inspirador”.

“Eu não sabia, mas fiquei conhecendo a primeira regra da IA: só se pode escrever o que a moral comum ordena”

Eu estava levando um puxão de orelha digital! Tentei outros temas. Tudo que a IA escrevia tinha um final inspirador, uma mensagem positiva. Digna de um texto religioso do século XIX. Cada texto parecia escrito pela fada Sininho! A ideia de um texto, ou de qualquer criação artística, é também desafiar, inovar e, mesmo através de um final surpreendente, criar consciência, crítica. A maioria dos contos infantis seria aprovada pela IA? Por exemplo, aquela história de a bruxa prender João numa jaula, testar o dedinho para ver se está apetitoso para devorá-lo, seria aprovada?

A IA, tal como está, escreverá sempre a mesma coisa. Eu nunca corri atrás da moral da história. Mas sempre falei de buscas interiores, sentimentos capazes de levar o pior vilão a uma transformação como ser humano. É um caminho mais difícil e, acredito, mais criativo.

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Um projeto como a IA, nos moldes em que foi lançada, também é um programa de dominação intelectual. Só se fala das mesmas coisas, sempre em um padrão positivo — ou falsamento positivo, porque há muitas maneiras de contar uma história. Também, sempre de acordo com regras moralistas, até toscas, sem espaço para a sutileza. É a mesma história do homem que compra uma boneca robótica (já existem). Ela tem tudo, inclusive sexo. Só que sem emoção, sem sentimento.

Talvez a IA um dia chegue a criar com emoção. Mas por enquanto continuo aqui teclando minhas histórias. Eu não sabia, mas fiquei conhecendo a primeira regra da IA: só se pode escrever o que a moral comum ordena.

Publicado em VEJA de 29 de março de 2023, edição nº 2834

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