Eu sou do tempo em que pai era pai. Meu pai nunca foi a favor de castigos físicos — mesmo assim exercia uma autoridade inquestionável sobre a família. Filho de imigrantes espanhóis, sempre quis estudar, mas não conseguiu se formar. Era um homem de classe média sofrida, ferroviário. Seu grande objetivo não era fazer fortuna, mas educar os filhos. Logo, faltar à escola era impensável — a não ser em caso de doença ou tristeza familiar, tipo o falecimento de um avô. Mas faltar por faltar, nunca! O diploma universitário era um objetivo fundamental.
Meu pai acreditava que a única forma de nós, os três filhos, termos um padrão de vida melhor que o dele era por meio da formação escolar. Repetir de ano, nem pensar. Eu tinha medo só de imaginar as consequências, embora, como disse, ele não fosse adepto de castigos físicos. Sei que toda essa conversa é muito fora de moda. Hoje, eu vejo crianças gritando com os pais, mães assustadas e, vamos falar a verdade, professores impotentes diante de alunos ferozes.
“Há adultos que se recusam a exercer autoridade sobre os filhos — e, ainda pior, se tornam submissos a eles”
Nas escolas particulares, nem se fala. São comuns os alunos que tratam professores como serviçais, pois, segundo pensam, são seus pais que estão pagando os salários — embora isso não devesse pesar na balança e muito menos nas respostas. Mas, sim, eu tive uma prima que era professora em escola particular e sofria ao enfrentar os alunos. Era uma escola famosa, de prestígio, mas mesmo assim havia uma ordem implícita: era proibido reprovar, mesmo que o aluno não soubesse os rudimentos da matéria. Nas famílias, então, vejo muitos pais que se tornam prisioneiros das crianças. Dizer “não pode isso”, “não pode aquilo” e exercer até um grama de autoridade não é bem visto até dentro da própria família. Acho lindo quando os pais compartilham a vida com os filhos. Mas sou contra quando abdicam da função que, para mim, é básica: formar, transmitir valores, apoiar os estudos.
Enfim, ser pai — e ser pai não é o mesmo que se tornar um amiguinho. Dizer não também é uma forma de amar. E, se o filho não aprender o “não” com os pais, como será mais tarde, diante das inúmeras negativas que recebemos ao longo da vida? Mais que um amor permissivo, os pais também devem iluminar os passos dos filhos. Aprender a lidar com um “não” é melhor do que crescer acreditando que na vida só se vai encontrar o “sim”.
Mas eu vejo pais que se recusam a exercer qualquer autoridade sobre os filhos — e, ainda pior, se tornam submissos a eles. É fácil de entender. Todos nós queremos ser amados, inclusive dentro da família. Dizer sim parece um caminho fácil para conquistar o afeto. Mas eu tenho, bem próximo, o caso de uma tia permissiva cujo filho, meu primo, acabou preso. Ele simplesmente não entendia o “não pode”. O amor incondicional pode criar monstros. A palavra é pesada. Mas amar também é ensinar a entender os limites. Mais que tudo, aceitar que pai e mãe têm uma tocha na mão para iluminar as esquinas daqueles que ainda estão aprendendo a caminhar pela vida.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011







