A gente vive em um mundo louco pela beleza. E, é claro, a beleza seletiva. Daquela condicionada à juventude e à magreza. Quando se diz que alguém é bonito, na verdade, temos um protótipo formado dentro da nossa cabeça, que reúne boa forma física, traços equilibrados, cabelos em um penteado estiloso. Mas há convenções.
Ao se elogiar alguém que foge dos padrões, surgem frases estranhíssimas e desagradáveis, como: “Eu vi uma gorda linda”. Afinal, bonito de verdade é ser magro, diz a regra imposta pelas redes sociais. Ter barriguinha de tanque para os homens. E atenção: não vale ter barriga de máquina de lavar, como eu. A moda é ter cara de quem chupa manga, dizem por aí. Mas, apesar de todos os avanços estéticos disponíveis no mercado, há algo que não se consegue: a beleza que vem de dentro.
Há pessoas que possuem traços lindos, corpos perfeitos e malhados, peles esticadas e lisas, dentes capazes de iluminar uma sala durante um apagão. Mas basta abrirem a boca e, em cinco minutos, envelhecem vinte anos. Em dez, criam rugas que nenhum dermatologista consegue apagar. São as rugas da arrogância, da inveja, da crueldade. E para essas, infelizmente, ainda não inventaram Botox.
“O tempo desenha linhas no rosto, mas oferece um tratamento estético poderosíssimo: a humanidade”
Conheço também o contrário. Pessoas que, à primeira vista, talvez não chamem atenção. Não entram numa sala provocando suspiros. Não têm o nariz que sonharam, o peso recomendado pelo Instagram ou a juventude eterna prometida pelas clínicas. Mas começam a falar e algo acontece. O rosto se transforma. O sorriso ganha luz. Os olhos parecem maiores. De repente, você pensa: “Como essa pessoa é bonita!”. E é mesmo.
A generosidade embeleza. O humor embeleza. A inteligência embeleza. A capacidade de ouvir, principalmente, embeleza muito.
Já a maldade deforma. A inveja entorta. A arrogância endurece as feições. Há gente que fez tantos procedimentos para ficar bonita que já não consegue mexer o rosto, mas não precisava: a alma já estava paralisada antes.
Não sou contra procedimentos estéticos. Cada um deve fazer o que quiser com o próprio rosto, desde que não me peça para pagar. Se uma plástica, um preenchimento ou uma dieta faz alguém se sentir melhor, ótimo.
Conheço gente que ficou mais bonita com a idade. Não porque tenha escapado das rugas, mas porque aprendeu a rir de si mesma. São aquelas pessoas que se tornaram menos exigentes, mais compreensivas. Aprenderam a perdoar. Descobriram que não precisam vencer todas as discussões. O tempo desenha linhas no rosto, sim, mas também acrescenta humanidade. E a humanidade é um tratamento estético poderosíssimo.
Talvez a verdadeira beleza seja justamente aquela que não aparece no espelho. Aparece quando alguém nos trata bem sem ter nada a ganhar com isso. Quando oferece ajuda sem anunciar nas redes sociais. Quando consegue ser feliz com a felicidade alheia. Quando prefere uma palavra carinhosa a uma humilhação.
Quanto à feiura de dentro, sinto informar: para ela ainda não existe cirurgia plástica que resolva.
Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013







