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Das passarelas às ruas, a moda em movimento

Passarela do Louvre: moda e beleza estão lá, e não é na Mona Lisa

O museu e a L'Oréal mostram que maquiagem, joias, penteados e roupas já influenciavam a sociedade muito antes das semanas fashion

Por Simone Blanes Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 21 ago 2026, 20h18
Passarela do Louvre: moda e beleza estão lá, e não é na Mona Lisa Priorizar nos meus resultados Google

A moda e a beleza adoram olhar para frente, mas quase sempre buscam inspiração no passado. Ela reaparece nas passarelas em forma de drapeados gregos, coroas douradas, bordados renascentistas, cabelos adornados por flores, joias monumentais, maquiagens vindas de séculos e séculos atrás ou silhuetas que parecem saídas de retratos antigos. Por isso faz tanto sentido encontrar moda e beleza (muito além da arte) em um lugar onde poucos esperam vê-las desta forma: no Louvre.

Muita gente não sabe, mas o maior museu do mundo tem um belíssimo roteiro permanente, criado em parceria com o Grupo L’Oréal, que convida os visitantes a percorrer mais de 100 mil anos de história da beleza. Batizado de “De Toutes Beautés! ” (“De Todas as Belezas”), o percurso reúne 108 obras para mostrar como maquiagem, penteados, cosméticos, adornos, roupas e padrões estéticos sempre foram muito mais do que vaidade. São códigos sociais, símbolos de poder, identidade e pertencimento — exatamente como a moda e a beleza continuam sendo até hoje.

O roteiro foi organizado em três grandes temas: os rituais de beleza, os ideais estéticos e representações do belo de cada época e a maneira como a aparência traduz as transformações das sociedades (da Mesopotâmia e Egito até a Europa clássica). Em vez de apenas observar pinturas e esculturas, no entanto, o visitante passa a enxergar detalhes que dialogam diretamente com as coleções atuais. As joias exuberantes lembram o maximalismo que voltou às passarelas; os tecidos drapeados seguem inspirando casas como Dior e Alaïa; cabelos ornamentados e flores aplicadas remetem às propostas românticas vistas recentemente em desfiles de alta-costura. A história da moda e da beleza, afinal, nunca começa do zero — ela revisita continuamente o que a arte preservou.

Curiosamente, a protagonista mais famosa do museu ficou de fora. A “Mona Lisa” não integra o percurso. Mas a escolha é deliberada. Embora seja provavelmente a maior influenciadora da história da arte — uma imagem reproduzida milhões de vezes, cercada por filas de visitantes e permanentemente reinterpretada pela cultura pop — a intenção do projeto é deslocar o olhar para obras menos óbvias, mas igualmente fundamentais para compreender como diferentes povos enxergaram a moda e a beleza ao longo do tempo.

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Sarcófago etrusco de terracota, representando um casal reclinado em um leito. A mulher, à esquerda, usa touca e segura um objeto. O homem, à direita, tem cabelos longos e barba, com o braço esquerdo sobre o ombro da mulher. Ambos sorriem, em pose relaxada, sobre um sarcófago decorado com pernas esculpidas
“Sarcófago dos Esposos”: obra mostra vestimentas e maquiagem do antigo Egito que até hoje influenciam a moda e a beleza (Museu do Louvre/Reprodução)

Entre as obras do roteiro estão objetos funerários do Egito, como o “Sarcófago dos Esposos” (século II) e “O espelho e os objetos funerários de Nefatiabet”, que revelam a importância dos cosméticos na vida — e também na morte —, esculturas gregas que estabeleceram referências de harmonia e proporção como “Mercure Richelieu” (Mercúrio), além do célebre “Hermafrodito Adormecido”, escultura em mármore do período helenístico (século II a. C. ) que retrata o filho de Hermes e Afrodite, e cuja representação do corpo e da identidade mostra que discussões sobre gênero e beleza atravessam séculos e continuam absolutamente contemporâneas; a pintura “Vênus e as Três Graças Oferecendo Presentes a uma Jovem”, do italiano Sandro Botticelli, datado de cerca de 1483–1486, em que supostamente se apresenta o primeiro mega-hair da história.

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Afresco renascentista com sete figuras. À esquerda, três mulheres de cabelos ruivos, vestindo túnicas coloridas, conversam. Ao centro, duas mulheres de cabelos claros, uma de túnica rosa e outra amarela, interagem. À direita, uma mulher alta de túnica vinho e touca branca estende as mãos para a mulher de rosa. Um menino pequeno de túnica clara está agachado no canto inferior direito. O fundo é uma parede rachada
“Vênus e as Três Graças Oferecendo Presentes a uma Jovem”, de Sandro Botticelli: jovens já clareavam e colocavam apliques para alongar o cabelo (Museu do Louvre/Reprodução)

A experiência ganha uma camada tecnológica por meio de um aplicativo acessado por QR Code. Algumas obras literalmente “contam” suas histórias em primeira pessoa, aproximando o público de narrativas que ajudam a entender como os padrões de beleza foram construídos, questionados e transformados ao longo das civilizações.

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O mais interessante, porém, é que não é só uma visita temática, mas uma iniciativa que reforça uma ideia que a moda conhece bem: tendências passam, mas referências permanecem. Nenhum estilista cria isoladamente. Todo desfile conversa com a pintura, a escultura, a arquitetura e a história. Quando uma passarela resgata um drapeado clássico, uma coroa dourada ou um penteado escultural, ela também presta homenagem a um patrimônio visual construído ao longo de milhares de anos.

No Louvre, a moda ou a beleza não estão expostas em manequins. Estão escondidas nas pinceladas, no mármore, no ouro, nas tranças, nos véus, nos rostos e nas joias. Basta mudar o olhar para perceber que, antes de vestir ou ornamentar as passarelas, já existiam e fizeram a própria história.

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