Novas tecnologias apresentadas pela gigante L’Oréal indicam a próxima revolução da beleza
O futuro estará em protocolos radicalmente personalizados
Por décadas, a indústria da beleza travou uma batalha contra o tempo: desenvolveu substâncias para suavizar rugas, fórmulas para recuperar cabelos danificados e tratamentos para corrigir os efeitos da idade. Agora, a lógica começa a mudar. Antes de esconder os sinais do envelhecimento, a tecnologia quer compreendê-los. Antes de alisar os fios, busca entender sua estrutura. Antes de recomendar um cosmético, pretende conhecer quem está diante do espelho. Vender a ideia de uma beleza customizada, feita na medida para cada rosto (e corpo), virou um novo mantra da indústria do ramo. E seus efeitos ecoaram nos corredores da VivaTech 2026, principal feira de tecnologia da Europa, realizada recentemente em Paris.
Um dos estandes mais disputados do evento era o da gigante francesa da cosmética L’Oréal — que, sob o tema “Odisseia da Beleza”, apresentou inovações que unem inteligência artificial, biotecnologia, engenharia e ciência de dados para uma nova geração de tratamentos —, com foco não só em desenvolver cosméticos mais eficientes, mas em criar protocolos personalizados, capazes de entender as características biológicas de cada indivíduo antes mesmo da escolha do produto.
A mudança acompanha uma transformação no comportamento dos consumidores. Em 2025, conteúdos sobre beleza ultrapassaram 7 trilhões de visualizações no TikTok e mais de 280 milhões de mensagens semanais sobre beleza e saúde circularam no ChatGPT. “Entramos em uma nova era”, afirmou Béatrice Dautzenberg, diretora global de serviços e inovação da L’Oréal, que atualmente investe 1,3 bilhão de euros por ano em pesquisa e inovação e outros 1,5 bilhão de euros em tecnologia.
Para ela, a descoberta de produtos deixa de acontecer apenas nas lojas, revistas ou redes sociais. “Hoje, essa busca pode acontecer por texto, voz ou até por imagem. Uma pessoa pode fotografar os produtos que tem em casa e perguntar se eles são adequados para sua pele ou cabelo”, explicou. Nessa direção caminha uma das principais parcerias anunciadas pela empresa durante a VivaTech: a colaboração com a OpenAI, dona do ChatGPT, para tornar o celular um consultor de beleza capaz de oferecer recomendações de acordo com clima, exposição solar, hábitos e necessidades individuais. Acessado por meio de perguntas, envio de fotos e vídeos à ferramenta de IA, o serviço por ora está disponível só nos Estados Unidos.
Quando a ciência encontra a beleza, os protocolos da estética ganham contornos futuristas. Um dos lançamentos mais impressionantes é o Hair Digital Twin, sistema digital de tratamento de cabelos. Em vez de testar soluções diretamente nos fios, pesquisadores criam versões virtuais dos cabelos que receberão os produtos para simular como moléculas interagem com diferentes estruturas capilares. O sistema reproduz oito tipos globais de cabelo e realiza simulações até 100 vezes mais detalhadas que os métodos convencionais. O resultado são produtos desenvolvidos para as necessidades específicas de cada textura.
A mesma lógica chega aos cuidados com a pele. Se antes os tratamentos eram definidos pela idade cronológica ou características visíveis, agora o lema é compreender o que acontece em nível biológico antes que os sinais apareçam. A principal demonstração dessa mudança foi um novo aparelho de uso em clínicas de estética, o Cell BioPrint, primeira tecnologia capaz de analisar, em poucos minutos, a idade biológica da pele avaliando biomarcadores ligados ao envelhecimento e construindo um protocolo individualizado. Ao lado dele estava o Lancôme Skin Screen, sistema baseado em IA que mede doze parâmetros clínicos da pele e cria rotinas personalizadas e recomendações específicas para cada paciente. “Você consegue entender quais ações podem ser tomadas hoje para impactar positivamente a beleza de amanhã”, diz Béatrice.
Essa ideia de protocolos personalizados também chega à casa dos consumidores. Um exemplo é a nova máscara facial de LED da Lancôme com apenas 2 milímetros de espessura. Ela é transparente, flexível e adapta-se ao rosto com muito mais precisão. Antes de seu uso, a pele é analisada pelo Cell BioPrint, que determina a idade biológica e as necessidades específicas do paciente. No universo dos cabelos, a busca por tratamentos menos agressivos ganha força com a Light Straight + Multi-Styler. O aparelho substitui o calor intenso por uma tecnologia de luz infravermelha e suas placas trabalham em temperaturas de até 160 graus, inferiores às das chapinhas convencionais, reduzindo ressecamento e preservando melhor a queratina natural dos fios. Ambos estarão no mercado até o fim de 2027. Para além da tecnologia, a verdadeira revolução da beleza está em entender que nenhuma pele, nenhum cabelo e nenhuma história são iguais.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003







