Moda em modo manifesto: estarão as roupas virando discurso político?
Do tapete vermelho às passarelas, a moda cada vez mais assume papel de posicionamento e a neutralidade vira exceção
Se houve um tempo em que celebridades separavam entretenimento de posicionamento, ele ficou para trás. A temporada de premiações deste ano vem consolidando um movimento que já vinha se desenhando: artistas e marcas passaram a usar a moda como linguagem política explícita — não apenas simbólica, mas declaratória.
No último Grammy, por exemplo, artistas transformaram o tapete vermelho em plataforma de protesto: Billie Eilish apareceu em um look moderno da designer sueca Ellen Hodakova combinado a um broche “ICE Out”, do movimento que pede o fim da atuação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), associado a denúncias de repressão e abusos contra imigrantes nos Estados Unidos, mensagem que também apareceu no vestido preto Alaïa de Hailey Bieber . Já Bad Bunny vestiu um terno da Schiaparelli sob medida não apenas para receber o maior prêmio da noite de melhor álbum do ano, mas também para defender os imigrantes latinos e passar a mensagem de que eles também, assim como ele, merecem respeito: “Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas – somos humanos e somos americanos”, discursou. O dress code virou código político.
A escolha não é aleatória. Artistas contemporâneos funcionam como marcas pessoais — com audiência global, comunidades engajadas e impacto econômico real. Quando incorporam mensagens em roupas, acessórios ou styling, criam imagens de circulação imediata e de fácil leitura. Um broche, uma camiseta ou uma frase bordada condensam posicionamentos complexos em um símbolo compartilhável. Ou seja, a moda oferece aquilo que a política tradicional raramente consegue: viralização emocional.
Esse fenômeno se intensifica porque o contexto cultural mudou. Em um ambiente de polarização crescente, o silêncio também comunica. Pesquisas recentes mostram que consumidores esperam que marcas expressem valores — e interpretam neutralidade como falta de compromisso. Isso coloca a indústria em um dilema: falar pode afastar clientes, mas não falar também pode gerar rejeição.
Curiosamente, quem mais tem se manifestado são empresas independentes e criadores menores, justamente por terem maior proximidade com o público e menos camadas corporativas. Fechamentos simbólicos de lojas em dias de protesto, doações integrais de faturamento e campanhas de conscientização nas redes passaram a fazer parte do repertório. Já grandes conglomerados tendem à cautela estratégica: operam em mercados globais, atendem consumidores com visões políticas diversas e precisam gerenciar riscos financeiros e de imagem.
Não é de agora…
Embora pareça um fenômeno novo, a relação entre moda e política é antiga — apenas muda de intensidade conforme o momento histórico. Nos anos 1960, Yves Saint Laurent criou o Le Smoking feminino, que ultrapassou a estética e virou símbolo de emancipação e igualdade de gênero. Décadas depois, a moda voltou ao ativismo explícito quando a Dior, sob direção de Maria Grazia Chiuri, colocou nas passarelas camisetas com frases feministas, transformando teoria acadêmica em objeto de desejo global.
Em 2020, campanhas como a da Nike, que mudou temporariamente seu slogan “Just Do It” para “For Once, Don’t Do It” (Por uma vez, não faça), em resposta à morte de George Floyd, incentivando a reflexão sobre racismo estrutural, mostraram que posicionamento podia ser parte central da estratégia de marca e não apenas marketing pontual.
Entre artistas, o histórico também é consistente. Da moda andrógina de David Bowie, que questionava normas de gênero nos anos 1970, aos figurinos militantes de Madonna nos anos 1980 e 1990, passando pelas recentes camisetas “Protect The Dolls”, criadas pelo designer americano Conner Ives em defesa da comunidade trans, mas viralizadas por Pedro Pascal e Tilda Swinton, a roupa sempre funcionou como extensão do discurso cultural. A diferença agora está na velocidade digital e na expectativa social: hoje, posicionar-se não é rebeldia, é quase obrigação.
Existe ainda uma camada econômica importante. A moda é uma indústria capitalista, dependente de desejo e identificação. Quando consumidores escolhem marcas que refletem seus valores, também vira ato político. Ao mesmo tempo, cresce a desconfiança em relação a gestos considerados performáticos, especialmente quando as empresas não sustentam discurso com ações concretas. Transparência passou a ser moeda de credibilidade, principalmente para a Geração Z, muito atenta a essa questão.
A pergunta deixou de ser se a moda e a política devem se misturar. A verdade é que já estão misturadas. A questão agora é como se misturam: com autenticidade ou oportunismo, com risco ou silêncio estratégico. De qualquer forma, vestir-se continua sendo uma escolha estética, mas cada vez mais também é uma declaração política e de posicionamento perante o mundo.





