Wolverine é brutal, ousado e leva fórmula de sucesso PlayStation ao limite
Produção da Insomniac traz boa história e uma das versões mais violentas do herói da Marvel nos games, mas esgota estruturas conhecidas de sucessos da Sony
Um homem amargo de meia idade tem que aprender a lidar com surtos violentos e com os próprios sentimentos em um mundo no qual ele não se encaixa muito bem. De forma bem resumida, essa descrição se aplica para os capítulos principais dos games de God of War, The Last of Us e agora também para o novo jogo do Wolverine, exclusivo do PlayStation 5.
A produção estrelada pelo herói da Marvel traz uma história brutal, inédita e sentimental, claramente moldada por sucessos do passado. Quase como um filtro gráfico aplicado, é uma aventura de Logan processada pela fórmula comprovada de sucesso da Sony nos games. No papel é uma combinação infalível e deve agradar em cheio muitas pessoas, mas para fãs veteranos de PlayStation a receita mostra certo desgaste.
Produzido pela Insomniac, que já fez três títulos de sucesso do Homem-Aranha também publicados pela PlayStation, o jogo repete os acertos do amigão da vizinhança, mas agora em uma estrutura linear.
Enquanto os games do Homem-Aranha focam na liberdade de explorar um mundo aberto como quiser, Wolverine dá atenção à sensação de controlar uma criatura letal e furiosa, mas também assombrada por lembranças terríveis e a dificuldade de viver em sociedade. É quase um filme interativo e você comanda um ator com deixas muito claras sobre o que fazer durante a história (inclusive, com os comandos específicos aparecendo na tela) e com espaço para improvisação e criatividade nas batalhas.
A trama é ousada e inteligente, leva de 12 a 15 horas para terminar. Ela costura momentos marcantes da biografia do Wolverine em uma narrativa única e empolgante, deixando espaço para novas histórias. O roteiro brinca com a linha do tempo de Logan e pega inspirações diversas para concatenar tudo em uma grande saga, subverte certos padrões e expectativas de personagens conhecidos e entrega um final que certamente vai gerar muitos debates e sentimentos intensos.
A narrativa surpreende e deve dividir opiniões dos fãs mais antigos do Wolverine, primeiro por apresentar um mundo em que não existe o grupo X-Men, mas também por fugir muito da representação média do personagem em várias mídias.
Por outro lado, a parte dos controles é bem previsível e entrega o que se espera. A jogabilidade é rápida, feroz e incentiva a jogar de forma ofensiva. O game lida de maneira inteligente com o poder mutante de Logan de se regenerar e coloca hordas de inimigos numerosas e bem agressivas para não dar respiro ao herói, assim como alguns poucos combates contra chefões, mais vistosos e poucos desafiadores. Em combate, o que se vê são representações gráficas de brutalidade como pouco se encontra nos videogames ou em outras obras audiovisuais com personagens da Marvel, em patamar similar ao dos filmes do Deadpool no MCU.
Entre uma luta e outra, Logan explora cenários com itens escondidos e trechos de conversas que ajudam a contar mais sobre o mundo ao redor e os dilemas internos do personagem. É aqui que a ‘fórmula PlayStation’ fica mais evidente, lançamentos anteriores de Last of Us e God of War exploram muito esse tipo de dinâmica e com amplo sucesso.
Porém, a estrutura mais linear de Wolverine em relação a esses outros jogos parece limitar o potencial, algumas partes podem soar forçadas e artificiais demais. Em tempo, acredito que vai sim agradar muitas pessoas, mas pra quem é mais fã veterano de jogos PlayStation é mais fácil ver as engrenagens por trás da magia e sentir um certo cansaço da receita.
Como manda a tradição em títulos de super heróis, há uma enxurrada de referências e curiosidades pipocando pela tela. As mais divertidas e evidentes são os diversos uniformes e visuais possíveis de desbloquear para Logan, com roupas dos gibis, filmes, desenhos animados e outras tantas surpresas. Há desafios adicionais de combate e exploração que premiam com mais histórias do herói em várias épocas, mas estas contadas apenas em texto e narração.
Aliás, o trabalho de localização é fantástico, mas manchado pelo problema de jogos anteriores da Marvel publicados pela Sony: nomes são todos em inglês, gerando situações bizarras como Dentes-de-Sabre ser chamado apenas como Sabretooth. Apesar disso, o trabalho de atuação de todo o elenco brasileiro de dublagem é primoroso, assim como a tradução de textos, tutoriais e legendas.
Tudo isso é representado com um capricho visual impressionante. Cenários são grandiosos, animações fluidas e críveis e os efeitos de iluminação muito suaves e realistas. Porém, personagens humanos sofrem do problema do ‘vale da estranheza’, gerando um desconforto ao ver personagens virtuais extremamente detalhados, mas ainda com pequenas imperfeições que fogem do visual natural. Robôs e personagens mutantes menos realistas parecem se encaixar melhor no game – um problema, aliás, que os games do Homem-Aranha também sofrem.
Wolverine é um game caprichado, que entrega o tipo de ação e brutalidade que se espera do herói da Marvel, mas com uma história que se permite ousar de forma raramente vista nos filmes e desenhos animados. Para fãs mais antigos de produções da PlayStation, porém, boa parte do jogo pode soar cansada e repetitiva por se apoiar demais em sucessos dos últimos 13 anos.
Marvel’s Wolverine já está disponível com textos e dublagem em português do Brasil para PlayStation 5.
Esta crítica foi realizada com uma cópia digital do game disponibilizada pela PlayStation.







