Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês
Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Ter de fazer ou ter que fazer?

“Sempre usei o verbo ‘ter’, quando necessário, seguido de ‘que’, como por exemplo em ‘tenho que escrever um e-mail’, e nunca tive problemas com isso. Entretanto, comecei a reparar que muitas pessoas utilizam o ‘de’ no lugar do ‘que’, ficando ‘tenho de escrever um e-mail’. Existe uma forma errada e outra certa ou ambas são […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 12h48 - Publicado em 17 fev 2011, 16h57

“Sempre usei o verbo ‘ter’, quando necessário, seguido de ‘que’, como por exemplo em ‘tenho que escrever um e-mail’, e nunca tive problemas com isso. Entretanto, comecei a reparar que muitas pessoas utilizam o ‘de’ no lugar do ‘que’, ficando ‘tenho de escrever um e-mail’. Existe uma forma errada e outra certa ou ambas são aceitáveis? Seria uma questão de regionalismo, já que moro em Porto Alegre e a maioria das pessoas aqui usam o ‘que’?” (Bruno Grisci)

Não existe uma forma mais correta ou sequer preferencial entre “ter que” e “ter de”. Trata-se de duas opções à disposição do falante, que provavelmente estará sujeito (quase sempre está) a algum tipo de inclinação regional, familiar ou educacional por uma ou outra. Isso não muda o fato de que elas dizem rigorosamente a mesma coisa – ou seja, “estar obrigado a” – e que ambas contam com suficiente tradição de uso por bons autores para serem tratadas como iguais.

A título de curiosidade, vale ressaltar que nem sempre foi assim. Um olhar histórico sobre a expressão revela que “ter de” não é apenas anterior a “ter que”, mas já foi considerada pelos gramáticos a única forma culta, ao passo que a outra, derivada dela, era (mal)vista como “popular”. Até o século 17, ensina Said Ali, usava-se exclusivamente nesses casos a forma “haver de”, hoje antiquada e sobrevivente apenas em clichês como “hei de vencer”. Do século 18 em diante, completa ele, foi ganhando espaço o “ter de”.

Note-se que as observações acima, publicadas em livro por Ali em 1921, ainda nem consideravam a possibilidade do “ter que”. E bem poderiam fazer isso – para não dizer que teriam que fazer isso. Afinal, Machado de Assis, para ficar num exemplo suficiente, era um de seus adeptos e saiu-se com um “teve que concordar” num dos “Contos fluminenses”, como registra Francisco Fernandes em seu “Dicionário de verbos e regimes”. Rui Barbosa foi atrás.

O Houaiss explica que o “ter que” vem sendo usado “modernamente” em lugar de “ter de”, que ele chama de “castiço”. Tal uso cria uma irregularidade gramatical, o emprego do pronome relativo “que” numa função anômala – prepositiva para o Houaiss, conjuntiva na visão de Sousa Lima – que denunciaria uma contaminação do “ter de”. Mas isso é detalhe técnico.

De uma forma ou de outra, nem Bruno nem ninguém tem que falar “tem de”, assim como não tem de falar “tem que”. Eu tendo a preferir esta forma, mas tenho de reconhecer que, no combate à praga invencível da proliferação dos “ques”, a alternativa que o Houaiss chama de castiça é muitas vezes uma mão na roda.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br
Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique. Assine VEJA.

Impressa + Digital

Plano completo da VEJA! Acesso ilimitado aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias 24h e revista digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Receba semanalmente VEJA impressa mais Acesso imediato às edições digitais no App.

a partir de R$ 39,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos de VEJA no site, com notícias 24h e ter acesso a edição digital no app, para celular e tablet.

Colunistas que refletem o jornalismo sério e de qualidade do time VEJA.

Edições da Veja liberadas no App de maneira imediata.

a partir de R$ 19,90/mês