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Sobre Palavras

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Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Já deu sua monetizada hoje?

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Por Sérgio Rodrigues 9 abr 2013, 16h14 | Atualizado em 31 jul 2020, 06h31
Já deu sua monetizada hoje? Priorizar nos meus resultados Google

Monetizar está na moda. A palavra e a ação. Ocorre que a palavra é muito mais antiga do que a ação que ela – num desenvolvimento semântico relativamente recente e ainda não dicionarizado, filho dos novos desafios da economia virtual – passou a nomear: tornar rentável. Como nada no mercado das palavras é gratuito, convém investigar as origens dessa epidemia que assola o vocabulário do mundo digital.

Quando surgiu em francês, no início do século XIX, monétiser (derivado do latim moneta, “moeda”) carregava um sentido estritamente, como direi, monetário: “dar o valor e o curso de moeda ao papel”, ou seja, emitir dinheiro. Essa acepção, ampliada para abarcar a de “transformar metal em moeda” e a de “transformar em dinheiro vivo”, permanece atual: governos, por exemplo, podem monetizar a dívida pública por meio da compra de títulos pelo Banco Central, produzindo inflação.

Quando chegou ao português (oficialmente em 1890, mais ou menos a época em que monetize passou a ser usado também em inglês), eram esses sentidos primários que estavam em curso. Em francês, décadas antes, o romancista Honoré de Balzac tinha empregado repetidamente o verbo com intenções críticas, transformando-o num sinônimo de “julgar as pessoas por sua renda”. Mas tal acepção não parece ter sido exportada para outros idiomas.

A ampliação semântica recente de monetizar – “tornar rentável, tornar lucrativo, tornar vendável, vender” – foi muito além dos limites da decência vocabular, como costuma ocorrer com modismos. Uma definição que encontrei num blog dedicado à arte de “monetizar” blogs fala em catadores de lixo que monetizam latinhas de cerveja e refrigerante. Monetizam latinhas?! Vendem, pois é: o resto é basicamente linguagem fetichista. (Digo “basicamente” porque talvez seja um pouco mais do que isso, como veremos abaixo.)

O solo do novo sentido é o mesmo que foi apresentado ali em cima. Entre o governo que monetiza sua dívida e o blogueiro que luta para “monetizar” seus posts existe um paralelo bastante tênue, mas possível: ambos estão no ramo de fazer caixa. O cidadão quer apenas vender seu peixe, mas vender soa pedestre. “Tornar rentável” é muito longo. E monetizar vem do inglês. Se no processo se perde de vista a raiz etimológica de monetizar, que é ligada ao metal sonante que forma a base monetária da sociedade, paciência. Fim de papo, certo?

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Não tão depressa. Como quase tudo nesse campo, o sentido internético de monetizar nasceu de fato no inglês, que nunca teve à sua disposição o verbo rentabilizar. Derivado do francês rentabiliser, um neologismo do início dos anos 1960, rentabilizar dá conta de todos os sentidos moderninhos de monetizar, com a vantagem de já estar mais assentado na língua dos economistas e da população em geral – ou seja, a vantagem de ter um índice de rejeição mais baixo.

A única desvantagem de rentabilizar – que pelo visto não é pequena, pois a palavra anda meio sumida – parece ser sua associação ao vocabulário de um mundo pré-virtual. Se rentabilizar é analógico, monetizar é digital. E é em nossa cultura contemporânea de bens intangíveis, com sua frequente inclinação para a gratuidade e os novos desafios que isso impõe aos empreendedores, que a velha rentabilização, transformada em obsessão, tem mudado de nome.

Como eu disse ali em cima, o segredo do sucesso de monetizar reside basicamente no fetichismo anglófilo que cerca a palavra. No entanto, talvez não seja sábio descartar o que ela carrega de específico da cultura virtual. As receitas de rentabilização de uma empresa da velha economia são conhecidas; a monetização da informação digital é um desafio permanente à criatividade.

Não vou me surpreender se essa nuance for suficiente para levar a palavra além da arrebentação do modismo e entronizá-la nos dicionários do futuro.

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