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AS MISTIFICAÇÔES DA SUPOSTA DOUTRINA OBAMA

Sempre que alguém fala em morte das ideologias, dou um certo risinho de… desconsolo. Às vezes, rebato. Com freqüência, me calo. Sim, admito: essa conversa mole começou entre os, vá lá, conservadores. As idéias de, como é mesmo?, “justiça social e igualdade” que embalam o discurso esquerdista são tão sedutoras, que os seus adversários resolveram […]

Por Reinaldo Azevedo
Atualizado em 31 jul 2020, 17h54 - Publicado em 31 mar 2009, 17h35
Sempre que alguém fala em morte das ideologias, dou um certo risinho de… desconsolo. Às vezes, rebato. Com freqüência, me calo. Sim, admito: essa conversa mole começou entre os, vá lá, conservadores. As idéias de, como é mesmo?, “justiça social e igualdade” que embalam o discurso esquerdista são tão sedutoras, que os seus adversários resolveram opor ao embate ideológico aquele que seria um termo neutro: “eficiência”. Assim, uma medida seria boa ou má não em razão de seu viés ideológico, mas de sua eficácia supostamente neutra. Ou no que já virou clichê da esperteza chinesa: pouco importa a cor do gato desde que ele cace o rato. Adiante.

E, no entanto, as ideologias não morreram, é claro. Estão aí. Com freqüência, quando lemos sites, jornais, revistas, blogs, lemos mais ideologia propriamente do que fatos; lemos mais uma reconstrução da realidade segundo uma visão de mundo hegemônica do que propriamente fatos. Falei até agora em tese. Vamos ao caso concreto: a conferência de hoje em Haia sobre o Afeganistão, liderada por Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA. Aqui e no mundo, noticia-se o que chamam de “mudança da política americana” para a região. É mesmo?

Bem, se querem chamar de mudança o aumento da dose de remédio que a administração Bush vinha aplicando no país, tudo bem: Obama decidiu mandar mais soldados pra lá. E Hillary Clinton, em sua intervenção, pregou a necessidade de eleições limpas no país — que vem a ser a versão do Partido Democrata para, como é mesmo?, a implantação de regimes democráticos em ditaduras islâmicas. Até anteontem, isso não passava, dizia-se, de um delírio dos neoconservadores. A turma de Obama e de Clinton seria mais realista e voltaria ao paradigma de “ditador bom é ditador que é nosso amigo”.

Outra grande novidade estaria sintetizada nesta frase de Hillary: “Devemos apoiar os esforços do governo do Afeganistão em separar os extremistas da Al-Qaeda dos taleban que se uniram ao grupo não por convicção, mas por sinal de desespero”. Se você quer conhecer o que é o Taleban de fato, clique aqui. AVISO: É PARA QUEM TEM ESTÔMAGO FORTE. É A PRÓPRIA MANIFESTAÇÃO DO HORROR. Um garoto de 12 anos degola um inimigo, um “traidor”, e o faz com gosto. É o mal! É o coração das trevas. REITERO: NÃO É PARA QUALQUER UM. EU NÃO RECOMENDO QUE VOCÊS VEJAM.

Sim, essa “visão” — porque não passa disto: uma leitura — não deixa de representar uma inflexão em relação àquela que o governo Bush fazia. Há uma leitura bastante influente, de que discordo absolutamente, segundo a qual é possível fazer uma distinção entre o jihadismo, à moda Al Qaeda, e o que seriam radicalismos de caráter, no fundo, nacionalista. A turma do Osama seria basicamente diferente do Hamas, do Hezbollah e do próprio Taleban, todos estes envolvidos com demandas locais. Embora recorram ao terror, os motivos os distinguiriam.

Um cavalo é diferente de uma vaca, mas a diferença é irrelevante se eles forem trocar uma lâmpada. O terrorismo não é um desvio de conduta que conserva as informações essenciais da norma, mas pervertendo seu sentido. Acreditem: um regime ditatorial, que não recorra ao terror e busque uma aparência de legalidade, está ainda marcado pela democracia, mesmo que a renegue. Talvez tenha cura. O terrorismo tem outra natureza. Mais ainda quando seu horizonte é religioso, escatológico. Digamos, só por hipótese, que os israelenses todo escolhessem um novo Moisés para levá-los a uma nova terra prometida… No dia seguinte, além de o Hamas ter imposto a toda a região o regime tirânico que já vige em Gaza, o que mais aconteceria? Huuummm… Começariam os esforços para, vamos dizer, chegar a Paris… O programa do Hamas prevê combater os infiéis onde quer que eles estejam. A sua demanda local é só a mais urgente.

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Se isso é verdade para Hamas e Hezbollah, que têm como pauta imediata a destruição de Israel, o que não dizer dos talebans? Pesquisem um pouco. Eles já são, desde a origem, uma cria do que se chama “jihadismo”. Já nascem sem nem mesmo um limite territorial: ficam por ali, nas terras ignotas das fronteiras entre o Afeganistão e o Paquistão, transitando de um lado para o outro. Mais: na origem, contaram com amplo financiamento de estados islâmicos organizados. E se transformaram numa hidra. Acreditar que haja diálogo com taleban moderado corresponde a pedir à serpente que mude a sua natureza. A prova? Forneço: eles já chegaram ao poder, já foram governo, já tiveram a chance de seguir os passos da institucionalidade. Ocorre que eles só sabem praticar o terror. Como o Hamas. Como o Hezbollah.

A nota final — para mim, uma ironia a caminho de ser uma piada — que indicaria a mudança de postura do governo americano seria o apelo à colaboração do Irã. É mesmo? Os aiatolás combateriam o mau terrorismo dos telebans em sua fronteiras, mas continuariam a financiar o terrorismo (devo chamar de “bom”) do Hezbollah e do Hamas muito além de suas fronteiras? Eu realmente não acredito em terror islâmico local e terror islâmico global. Ainda que acreditasse, eu me negaria a criar uma “terrorômetro” para saber a partir de que temperatura ou grau a gente poderia ou não negociar com alguns deles.

Volto ao começo. A despeito disso tudo, lê-se aqui e no mundo que está em curso uma fantástica mudança da ordem global: a doutrina Obama, não raro apresentada como muito melhor do que a “doutrina Bush”. Assim será até um novo atentado terrorista nos próprios EUA ou em algum outro palco influente do Ocidente. E então nos lembraremos, dramaticamente, da distinção entre retórica e realidade, entre fato e ideologia.

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