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Por Trás dos Números

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Renato Meirelles é pai da Helena, acredita que a Terra é redonda, está à frente do Instituto Locomotiva e, neste espaço, interpreta os números muito além da planilha Excel

Cigarro ilegal: a caixa registradora do crime organizado no Brasil

Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que 87% dos brasileiros defendem uma atuação mais coordenada do Estado no combate ao produto

Por Renato Meirelles Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 28 jan 2026, 07h00 • Atualizado em 28 jan 2026, 07h05
  • Durante muito tempo, o comércio ilegal de cigarros foi tratado como um problema menor: uma infração de fronteira, uma perda fiscal tolerável, um desvio quase invisível no cotidiano das cidades. Essa percepção, no entanto, não se sustenta. O que parece pequeno, quando se repete todos os dias, vira sistema. E, quando vira sistema, deixa de ser um detalhe e passa a ser parte do modo como o crime se financia e se organiza no Brasil.

    A sociedade brasileira amadureceu sua leitura sobre o tema e passou a enxergá-lo pelo que ele realmente é: uma engrenagem do crime organizado. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva mostra isso com clareza ao indicar que 9 em cada 10 brasileiros entendem que o cigarro ilegal não é apenas um produto irregular, mas uma fonte recorrente de financiamento de organizações criminosas.

    Essa percepção coletiva ganha ainda mais relevância em um ano eleitoral. A tolerância social com a ilegalidade diminuiu. Quando perguntados sobre o papel do Estado, 87% dos brasileiros defendem uma atuação mais dura e coordenada do Estado no combate ao comércio ilegal de cigarros. O recado é claro: a população não separa mais a discussão sobre ilegalidade da agenda de segurança pública.

    A dimensão do mercado ajuda a entender essa cobrança. O comércio ilegal não é improviso. É uma estrutura paralela bem organizada, com logística própria, canais de distribuição estáveis e capacidade de adaptação às brechas da fiscalização. E o brasileiro já percebeu que essa estrutura não funciona sozinha: para a maior parte dos entrevistados (83%), os caminhos que abastecem esse mercado clandestino são os mesmos que sustentam o tráfico de armas e drogas, o que reforça que esse debate não pode ficar restrito ao campo tributário ou comercial, porque ele toca diretamente o problema da violência no país.

    Por isso, o debate precisa sair do campo moral ou comportamental, porque é estrutural. Não se trata de discutir escolhas individuais de consumo, mas de reconhecer um problema estrutural, com impactos diretos sobre a segurança pública, a arrecadação e a vida nas cidades. Combater o mercado ilegal de cigarros é, na prática, enfraquecer uma das bases mais estáveis de financiamento do crime organizado no Brasil.

    A boa notícia é que a sociedade já compreendeu isso. Falta, agora, o poder público responder à altura, com ações integradas de fiscalização, inteligência, cooperação federativa e políticas tributárias que reduzam os incentivos à ilegalidade. Ignorar esse tema é permitir que o crime continue fumando à vontade, enquanto o país paga a conta.

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