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Bolsonaro teria colhões para fechar o Congresso?

O Brasil passa pelo perigoso momento em que o "mito" do Líder Supremo começa a operar o imaginário coletivo

Por Maicon Tenfen Atualizado em 18 set 2017, 01h15 - Publicado em 18 set 2017, 01h02

Mitos são histórias que a humanidade conta a si mesma para dar sentido à existência. O Amor Eterno, a Justiça Divina e a Superação Heroica são exemplos de mitos constantemente reforçados no imaginário por narrativas inscritas em filmes, livros, canções, contos populares e obras de arte em geral.

Dentre todos os mitos, um dos mais poderosos é o do Líder Supremo. É o tipo de história que aparece nos períodos de crise, de vácuo político e de descrença com as instituições. Os que se veem abandonados projetam as suas esperanças em algum herói que possa punir os impuros e reconduzir o povo à prosperidade.

Pouco importa se o herói é um guerreiro como Aquiles ou um espertalhão como Ulisses. Se ele não possuir nenhuma dessas características, nós, afoitos e dedicados, teremos a capacidade de enxergar tudo o que há de bom naquele que elegemos como o representante da nossa causa.

Depois desse autoconvencimento peremptório, seguiremos o Líder Supremo até o inferno.

Dito isto, vamos aos fatos.

Não deixa de ser preocupante que multidões de facebookers endossem as declarações de políticos e celebridades sobre a inexistência de uma ditadura militar brasileira no período 1964-85 (ou 68-78, vá lá, considerando a vigência do AI-5).

Numa vergonhosa demonstração de má-fé, os apologistas da “ditabranda” ignoram a interrupção do voto direto, a censura prévia dos jornais (que não podiam denunciar casos de corrupção), o fim do habeas corpus e o poder presidencial de pôr em recesso as câmaras legislativas, inclusive estaduais e municipais.

Se isso não foi ditadura, devemos tirar todos os jovens da escola e botá-los a estudar apenas nas redes sociais.

Até então, reescrever a história recente do país era prerrogativa do PT, que tentou atribuir ao Governo Lula os direitos autorais do Plano Real. Do mesmo modo, boicotar eventos culturais e difamar as vozes divergentes era uma estratégia quase exclusiva dos movimentos de esquerda. Parece que boa parte dos que hoje se denominam liberais, conservadores ou “de direita” acha justo que as táticas do adversário sejam utilizadas em benefício próprio.

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Como chegamos a esse ponto?

A roubalheira irrefreável da classe política fez com que o cenário nacional ficasse claro para muita gente: de um lado, Brasília; do outro, os brasileiros. Lá os nobres e os reizinhos encastelados na sem-vergonhice e na fartura; aqui os bobos trabalhando e pagando impostos. A pergunta, a resposta e a revolta são óbvias: o que os políticos irresponsáveis fizeram com a tal democracia?

Usaram-na para roubar, roubar e roubar.

Desse modo, a sensação de que “está tudo perdido” coloca os eleitores numa zona cinzenta de ceticismo que facilmente adquire toques de delírio. É o perigoso momento em que o mito do Líder Supremo começa a operar o imaginário coletivo.

A lógica emocional desse raciocínio pressupõe que precisamos de alguém corajoso o bastante para acabar com a safadeza, alguém que represente os nossos anseios messiânicos de desforra, que possa fazer com que os vilões pereçam e seus seguidores sejam devolvidos à devida insignificância, alguém capaz de restaurar um tempo fantasioso em que os maus eram punidos e os justos recompensados, no caso o período da ditadura, com direito ao fechamento do Congresso ou até – por que não? – o extermínio físico dos bandidos que traíram o povo e vilipendiaram a nação.

Esse devaneio mítico e vingativo – que tende a crescer nos próximos meses – entregou a Jair Bolsonaro o cetro do Líder Supremo.

Infelizmente para os sonhadores que se deixam tomar pelo “mito” e se radicalizam a cada dia, nem Bolsonaro nem qualquer outro nome que chegue ao Planalto teria colhões ou mesmo condições de agir ditatorialmente – por maior que fosse o desejo – e assim promover uma devassa contra os corruptos, ação que naturalmente colheria um punhado de inocentes pelo caminho. Em primeiro lugar, não existe passe de mágica político. Em segundo, não há “governo forte” que possa se sustentar sozinho.

Se é verdade que grupos organizados como o MBL poderiam dar a projetos autoritários uma base social semelhante à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964, não é menos verdadeiro que as Forças Armadas, hoje, possuem um entendimento muito diferente de seu papel na sociedade – pelo menos é o que o Comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, deixou claro após a fala de um general que aventou a possibilidade de intervenção.

Cada um que vote em quem quiser, essa é a beleza e a vantagem da democracia, um sistema sem o qual o próprio Bolsonaro – militar rebelde que foi – não teria condições de se candidatar. Portanto, caro leitor, se você é daqueles que gostam de relativizar ou glorificar a ditadura no Brasil, o melhor que tem a fazer é estudar um pouco de História.

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