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A volta de Lula e o risco do efeito Macri (por Leonardo Barreto)

O que Bolsonaro fará?

Por Leonardo Barreto 11 mar 2021, 12h00 | Atualizado em 12 mar 2021, 01h17
A volta de Lula e o risco do efeito Macri (por Leonardo Barreto) Priorize VEJA no Google

A anulação das condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá repercussões importantes sobre o sistema político e o andamento do governo do presidente Jair Bolsonaro. A principal delas é uma indecisão presidencial sobre como conduzir seu governo nas escolhas de política econômica.

Sobre a tese de que uma possível candidatura de Lula favorece Bolsonaro ao promover uma eleição polarizada, é preciso lembrar que os eleitores não ideológicos, aqueles que decidem pleitos majoritários, julgam resultados de governo. Nesse sentido, a preocupação deve estar voltada para a agenda e a cronometragem dos seus resultados de curto e médio prazo.

Não colabora nada para o governo que a decisão tenha vindo no pior momento do presidente em termos de popularidade, com a economia parando novamente, ritmo lento de vacinação, inflação e sem auxílio emergencial. No entanto, o Planalto precisa perceber que pelo menos duas dessas variáveis (auxílio e vacinação) melhorarão nos próximos dois meses.

A questão mais importante, portanto, passa a ser juro e retomada dos empregos.

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Nesse sentido, é preciso observar o comportamento de Jair Bolsonaro. O presidente tem mostrado dificuldades de sustentar uma política ortodoxa na economia e pode pender para o grupo mais heterodoxo que o cerca, que defende algum relaxamento fiscal e investimento público para animar o mercado de trabalho.

Em termos de agenda, isso pode significar a retirada do apoio de qualquer tema que desagrade potenciais eleitores, como privatizações (Correios e Eletrobras) e reforma administrativa. Mesmo a PEC Emergencial, aprovada com dificuldade no Senado Federal, corre risco de alguma desidratação.

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O problema é que, se fizer isso, Bolsonaro se parecerá mais com administrações do PT e perderá de vez a confiança do mercado e de eleitores liberais, que foram responsáveis pelo presidente extrapolar o nicho ideológico e ganhar a eleição (os lavajatistas já foram perdidos). Ao ficar entre dois caminhos, ele corre o risco de não fazer nem um governo desenvolvimentista e nem uma gestão liberal, repetindo a trajetória do ex-presidente argentino Mauricio Macri.

Se olhar com atenção, Bolsonaro verá que sua alternativa de gerar resultados no curto prazo é acalmar o país, oferecer perspectiva concreta de retomada econômica e aproveitar a boa condição no Congresso Nacional para acelerar reformas. Nenhum gasto com obras ou adicional de auxílio emergencial conseguirá ter efeitos que cheguem a 2022.

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O momento, portanto, é de tranquilizar o mercado para suavizar a cotação do dólar, combater a inflação e tornar a curva de juros futuros menos íngreme para não comprometer a retomada da atividade produtiva.

Enquanto o presidente Bolsonaro não reduz as dúvidas quanto ao seu posicionamento, o país depende mais do que nunca do Congresso Nacional como ator de contrapeso. O problema é saber se Arthur Lira (PP/AL) e Rodrigo Pacheco (PP/AL) terão condições e recursos políticos para segurar bases parlamentares contra tentações populistas se o Planalto não estiver com eles.

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Em resumo, a anulação da condenação de Lula acelera ainda mais a corrida eleitoral, nociva para um país com fragilidade fiscal e um governo que alimenta dúvidas sobre a política conduzida pelo seu ministro da Economia. Como mostrou a Argentina, ficar pelo meio do caminho pode ser a pior opção para Bolsonaro.

Leonardo Barreto escreve no Capital Político. Doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) com especialização em comportamento eleitoral e instituições governamentais. Foi professor substituto da UnB e já coordenou mais de 50 estudos com parlamentares, jornalistas e autoridades do Executivo, nos planos federal, municipal e estadual. Ao longo de sua atuação profissional, acumulou profundo conhecimento empírico e científico sobre a lógica da ação política.

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