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O caso do juiz e as mulheres: reality show tem que continuar

Todo mundo, inclusive fora dos Estados Unidos, quer saber se o nomeado para a Suprema Corte americana é culpado ou não de agressão sexual

Por Vilma Gryzinski 1 out 2018, 13h42

É da essência do ser humano querer decifrar crimes, colocar-se no lugar do outro (principalmente se o outro estiver numa situação limite) e separar os culpados dos inocentes.

Daí o apelo dos programas de televisão com personagens “iguais a nós” vivendo em circunstâncias excepcionais.

No reality show da vida real, nenhum caso atual se compara ao de Brett Kavanaugh, nomeado por Donald Trump para a Suprema Corte, e as três mulheres que o acusam de agressão sexual quando estava no segundo grau e no começo da faculdade.

O caso vai durar mais uma semana, o que o FBI tem para investigar denúncias que remetem a mais de três décadas atrás.

Depois da dramática catarse da última sexta-feira, quando a primeira mulher a acusar o juiz, Christine Blasey Ford, prestou depoimento à comissão de justiça do Senado, e o acusado rebateu apaixonadamente, o caso continuou a ser um enigma para muitas pessoas.

Principalmente as que não fazem julgamentos com base em preferências partidárias ou, como é da natureza do caso, por empatia de gênero.

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Uma das muitas pesquisas a respeito mostra justamente a divisão de opiniões entre consultados que não são filiados a nenhum dos dois partidos americanos: 33% acreditaram em Christine, 32% em Kavanaugh.

Os restantes ainda não formaram uma opinião definitiva, exatamente por causa da força dos argumentos de um lado e de outro. É isso que mantém tanta gente, em todo mundo, roendo as unhas à espera de uma revelação que “feche” o veredicto popular.

Talvez, ao contrário do que acontece nas histórias de detetive e nos reality shows, ela nunca venha a acontecer – que falta fazem celulares, câmeras de segurança de uso disseminado e GPS, inexistentes no começo dos anos 80, época em questão.

Enquanto esperamos, segue um resumo dos argumentos contra e a favor de cada uma das partes:

O LADO DELA

Christine Blasey Ford falou com precisão e emoção, na dose certa, sobre o dia em que dois rapazes bêbados a agarraram quando ia ao banheiro da casa onde a pequena turma de duas escolas diferentes tomava cerveja.

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Não vacilou ao identificar Brett Kavanaugh e Mark Judge, dois amigos da mesma escola, como os agressores. O primeiro a empurrou para um quarto, jogou-se por cima dela na cama e tentou tirar sua roupa. Conseguiu escapar quando o segundo pulou em cima deles. O detalhe da mão em sua boca, calando seus gritos e a sensação de que poderia morrer sufocada, é arrepiante.

São igualmente impressionantes os “buracos” que ela não conseguiu preencher na história. Não sabe dizer como chegou ou como saiu da casa. Das quatro pessoas que identificou, nenhuma confirma ou se lembra de ter estado lá. Também não sabe que casa era. A amiga que menciona como a segunda menina presente, Leland Keyser, não tem nenhuma lembrança do episódio. E não conhecia Kavanaugh.

Um caso que aconteceu há mais de trinta anos certamente já foi empurrado para o canto das lembranças cercadas de sombras.

Mas Christine também não sabe de fatos recentes essenciais: quem pagou pelo teste de polígrafo que ela fez antes de aparecer em público como a denunciante? Foi no dia do enterro da avó ou no dia seguinte? Quem pode esquecer detalhes assim?

Por que ela disse que ficou com trauma de avião, consequência da claustrofobia desenvolvida nos instantes traumáticos vividos aos 15 anos, mas fazia viagens a passeio sem problemas aparentes?

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A avaliação da promotora Rachel Mitchell, contratada pelos republicanos para questionar Christine justamente para não dar a impressão de um bando de homens pressionando uma mulher traumatizada, é taxativa.

“Um caso típico de ‘ela disse, ele disse’ é incrivelmente difícil de provar”, avaliou ela. “Mas este caso é mais fraco ainda. A doutora Ford identificou outras testemunhas e estas testemunhas ou refutaram as alegações dela ou não as corroboraram.”

“Acredito que nenhum promotor razoável levaria adiante este caso com base nas evidências apresentadas à comissão.”

O LADO DELE

Vamos agora para a posição oposta. Uma questão criminal está sendo julgada por critérios políticos, evidentemente. Como um juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos pode ter sombras permanentes pairando sobre sua reputação? Como “repetir” o caso de Clarence Thomas, que ganhou o cargo vitalício mesmo depois de acusações muito mais concretas de assédio?

Kavanaugh exagerou no papel de vítima de uma trama perversa para derrubá-lo? Bateu demais no peito? Descontrolou-se a ponto de engasgar, lacrimejar e dar respostas desafiadoras?

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Ou seria exatamente esta a reação de um inocente acusado de um crime tão grave?

É claro que Kavanaugh dificilmente pode fazer uma prova negativa, demonstrar taxativamente que não cometeu um abuso na adolescência.

Exceto se a máquina de escavar fatos enterrados há décadas, que está funcionando dos dois lados, encontre algum fato sensacional que o exima ou enterre de vez.

As escavações já encontraram duas outras mulheres. Deborah Ramirez disse que estava em Yale, como Kavanaugh, quando ele praticou um ato vil durante uma festa de estudantes: baixou a calça e tentou aproximar os genitais de seu rosto.

O problema, de novo, é mais do que “ela disse, ele disse”. Não apareceu até agora, como no caso de Christine, nenhuma testemunha positiva.

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Os ex-alunos localizados dividem-se entre os que acham que o jovem Kavanaugh bebia demais e dava vexame e os que não se lembram de episódio do tipo.

Se três já seriam demais, as acusações da terceira mulher, Julie Swetnik, uma especialista em tecnologia da informação tão aparentemente digna de crédito quanto Christine Blasey Ford, esbarram em casos obscuros.

Um ex-namorado conseguiu na justiça uma ordem judicial de distância, alegando que ela o assediou durante anos depois do rompimento e até quando ele já estava casado, com filhos.

Outros processos: uma empresa que a contratou acusou-a de falsa comunicação de crime (assédio sexual, exatamente). E de turbinar o currículo com informações mentirosas.

Sem contar o advogado que chamou para representa no caso contra Kavanaugh, o extremamente midiático e performático Michael Avenatti. O mesmo de Stormy Daniels, a atriz pornô que fez um acordo de confidencialidade sobre um encontro sexual com Donald Trump e, claro, está contando tudo.

Julie Swetnik disse que foi a muitas festas onde meninas embebedadas eram vítimas de um “bonde” do estupro. Numa delas, viu Kavanaugh na fila. Em outra, ela mesma foi abusada.

Que mulher continuaria indo a festas onde barbaridades assim eram comuns, pergunta-se de um lado?

E que juiz da Suprema Corte pode sobreviver a bombas vindas de três fontes diferentes, indaga-se do outro?

OUTRAS INTRIGAS

O ambiente de alta beligerância que reina nos Estados Unidos desde a eleição de Trump desaguou com virulência nas duas margens do caso Kavanaugh.

Qualquer personalidade pública, ou até privada, que manifeste alguma simpatia pela posição do juiz é imediatamente acusada de defender o estupro e ofender todas as mulheres da face da terra.

Do lado contrário, reina a revolta com a inevitável politização do caso e com a possibilidade de que denúncias impossíveis de ser comprovadas tirem um juiz conservador da Suprema Corte, alimentadas pelo espírito de indignação da era do #MeToo.

Kavanaugh e simpatizantes tentam contornar a encrenca dizendo que Christine Blasey Ford provavelmente foi mesmo vítima do ataque descrito. Mas praticado por outras pessoas – aliás, apareceram e imediatamente sumiram, antes de ser identificados, dois homens assumindo terem sido os autores da agressão.

O que aconteceu com eles? Outro mistério a ser esclarecido.

Os trumpistas mais exagerados vão para o conspiracionismo sem fronteiras. Circulam, entre outras teorias, alegações estarrecedoras.

Algumas são espantosamente verdadeiras: a juíza aposentada Martha Kavanaugh, que acompanhou com expressão indignada o depoimento do filho na comissão do Senado, realmente teve sob sua alçada um processo de recuperação judicial, por falta de pagamento do empréstimo, da casa dos pais de Christine Blasey Ford.

Mas o caso foi resolvido antes e o casal não perdeu a propriedade

O irmão de Christine, Ralph, realmente trabalhou para o escritório de advogados que depois teria como cliente os investigadores particulares que encomendaram o dossiê sobre as conexões, curriculares e extracurriculares, de Trump na Rússia. Mas saiu antes de explodir a discussão.

Sobre as ligações de Christine com a CIA, com experiências de manipulação de mentes e outros conspiracionismos, o terreno naturalmente pantanoso permite todas as desconfianças.

Até o fim da semana, o FBI deve esclarecer algumas das dúvidas. É importante lembrar que toda a enxurrada de informações, depoimentos e declarações de princípios tem como objetivo apenas três pessoas: os três senadores republicanos, duas mulheres e um homem, que podem votar contra o indicado.

Obviamente, a influência sobre a opinião pública tem um peso enorme na decisão dos senadores. À espera da catarse coletiva que o “julgamento do juiz” poderá ou não propiciar, o reality show fica cada vez mais emocionante.

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