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Por Ilana Pinsky
A psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky reflete sobre saúde mental e suas conexões com a nossa sociedade
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O que a ligação mente-corpo tem a dizer sobre dores crônicas?

Relatos de sofrimentos físicos duradouros são uma constante no tratamento de saúde mental; formas de pensar e agir que podem reduzir o volume da dor

Por Ilana Pinsky*
10 jan 2024, 08h00

Em uma cena da nova temporada da série The Crown, príncipe Philip relata ao neto, príncipe William, como sua dor constante nos ombros e pescoço tem relação com emoções não resolvidas. A cena, que pretende mostrar um momento íntimo entre os personagens, remete imediatamente ao meu trabalho como psicóloga clínica. Relatos de sofrimentos físicos duradouros são uma constante no tratamento de saúde mental. Vamos a um panorama doméstico.

Rita, jovem paulistana, integrante de família bastante desestruturada, veio tratar sua depressão, mas logo chamou minha atenção a frequência com que suas crises de enxaqueca também limitavam suas atividades. Paula, ex-executiva de origem nordestina, família próxima e amorosa, meia idade, procurou o consultório para lidar com doloroso final de um casamento, mas descrevia sintomas de fibromialgia constantes. Renato, sócio de escritório de advocacia, reclama do emprego que odeia, mas não se sente confortável em largar. Depois de algumas consultas, suas dores lombares crônicas que limitam — às vezes impedem — seu enorme prazer de fazer esportes radicais, passam a tomar espaço em nossas conversas semanais.

Já Fernando procurou apoio psicológico após anos de tentativas de tratamentos exclusivamente médico-físicos, incluindo cirurgias, infiltrações com corticoides, medicamentos e fisioterapia. Frustrado com os resultados, veio se tratar com terapia cognitiva, após ler o famoso livro de John Sarno (Healing Back Pain). Na obra, o controverso médico da New York University especializado em reabilitação, apontava que muitas dores crônicas não traumáticas não resultam de anomalias estruturais, mas de fatores psicológicos não tratados.

Dores crônicas, aquelas que duram mais de três meses, constituem importante fonte de sofrimento, frequentemente interferindo nas atividades diárias e afetando a vida das pessoas por anos: ausências repetidas no trabalho, desgaste de relacionamentos, perdas econômicas. Essa situação é tão relevante que, globalmente, a principal causa de anos vividos com incapacidade (ou seja, a soma dos anos em que a pessoa não consegue trabalhar, se relacionar, viver com saúde) são dores lombares e enxaquecas, condições associadas à dor crônica.

Viver com dor contínua, como nos casos de Rita, Paula, Renato e Fernando significa enfrentar desafios diários em situações e atividades que, para outros, são fáceis. Além do sofrimento decorrente da dor, frequentemente têm de encarar descrédito de pessoas próximas e críticas por não melhorarem.

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As prevalências de dores constantes como essas são impressionantes. No Brasil, uma metanálise recente aponta que mais de um terço da população adulta vive com dores crônicas de nível moderado a intenso. Já se sabe também que há fatores que aumentam a chance de
convivermos com esses sofrimentos persistentes (ser mulher, ser mais velho), alguns deles modificáveis (sedentarismo, nível de massa corporal, qualidade do sono, consumo pesado de álcool, tabagismo). No caso da fibromialgia, uma condição caracterizada por dor músculo-esquelética generalizada, fadiga e problemas com sono, memória e humor, as mulheres apresentam nove vezes mais episódios do que os homens.

Embora existam muitas vias de explicação para as dores crônicas, a visão atual baseada em evidências é de que essas são tanto físicas como socioemocionais, no que diz respeito à origem e, principalmente, à forma de manejá-las. A dor é construída por diversos locais no cérebro,
incluindo o sistema límbico, seu centro emocional. Não se trata de desconsiderar a origem biológica de uma determinada dor, de achar que “está tudo na cabeça do paciente” –- o que infelizmente ainda acontece, mesmo entre profissionais de saúde, quando não há certeza sobre a
localização do problema –.

Medicamentos e fisioterapia, por exemplo, são frequentemente importantes integrantes do menu de tratamentos. Eventualmente, intervenções cirúrgicas também têm um papel. Isso dito, estratégias emocionais podem ajudar o indivíduo a sofrer menos, a administrar melhor seu sofrimento. Assim, existe toda uma área da psicologia que se chama “pain psychology”.

Neurocientistas, em estudos utilizando ressonância magnética funcional, por exemplo, perceberam que a atenção, as expectativas, o pensamento catastrófico dos indivíduos alteravam a maneira como os indivíduos experimentavam dor. É claro que o achado pode ser circular, porque quem tem dor, frequentemente se sente muito menos disposto. Separar causa e efeito é um desafio.

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De qualquer forma, é fato que a depressão, a ansiedade e outros tipos de angústia emocional podem tanto intensificar quanto ser intensificados pela experiência de dor. Ou, dito de outra forma, o contexto em que você experimenta a dor irá influenciar drasticamente a sua percepção sobre ela.

Um dos lados positivos de presumir que as dores crônicas são sempre biológicas e emocionais é que permite à pessoa ter mais controle sobre elas e participar mais ativamente do seu manejamento. Nesse sentido, Rachel Zoffness, neurocientista e terapeuta cognitiva especialista em dor, seguindo uma longa linha de especialistas, afirma que há várias formas de pensar e agir que podem reduzir o volume da dor ou aliviar o sofrimento. Entre elas:

  • Aprender sobre dor crônica – o que é, o que a afeta e é afetado por ela (por exemplo, o sono) quais são as áreas do cérebro que são estimuladas. A dor é o sistema de alerta do corpo, mas frequentemente não é um indicador preciso, mas sim exagerado, do dano real aos tecidos do corpo. Assim, mesmo quando algo dói no nosso corpo não significa necessariamente que o corpo esteja lesionado. Leia essa série do The Lancet que discute achados recentes.
  • Conhecer a sua “voz de dor” – Aqueles com dor crônica, frequentemente têm que lidar com essa voz pessimista e catastrófica, que tende a aumentar o volume do sofrimento. A mensagem é que nunca vamos melhorar, que não devemos nos mexer, interagir, caminhar. Desconfie de seus “conselhos” (em forma de pensamentos e expectativas negativos), aprenda o que dispara seus gatilhos, perceba o impacto no aumento de sua angústia e aprenda, pouco a pouco, a regular suas emoções.
  • É possível e recomendável o paciente continuar se movimentando – As pessoas com dor crônica muitas vezes desenvolvem receio de se mexer por conta da voz da dor descrita acima. A ideia é agir de maneira semelhante à recomendada para lidar com fobias. Pouco a pouco, de forma dosada, o individuo vai se reacostumando a caminhar, dançar, fazer esportes – dessensibilizando gradualmente o cérebro e o corpo. Evitar movimentar-se conduz a um ciclo de atrofia muscular, medo, diminuição da capacidade física e aumento da sensibilidade e dor.

* Ilana Pinsky é psicóloga clínica e pesquisadora ligada à Fiocruz. É autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis (Contexto),  foi consultora da OMS e professora da Unifesp e da Universidade de Columbia

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