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Transtorno de jogos: quando o entretenimento vira risco à saúde

A dependência de jogos eletrônicos e online se tornou uma preocupação de saúde pública

Por Camila Espínola* 24 fev 2026, 07h30 • Atualizado em 24 fev 2026, 07h44
  • A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece oficialmente o transtorno de jogos (gaming disorder) como uma condição caracterizada pela perda de controle sobre o tempo dedicado aos jogos eletrônicos, pela prioridade crescente atribuída a essa atividade em detrimento de outras áreas da vida e pela continuidade do comportamento mesmo quando já existem consequências negativas evidentes.

    Esse reconhecimento resulta de estudos científicos que apontam que o uso excessivo de jogos pode provocar alterações no funcionamento cerebral, especialmente no sistema de recompensa ligado à dopamina, mecanismo também envolvido em outros tipos de dependência.

    Quando o envolvimento com os jogos se torna excessivo, podem surgir impactos emocionais e comportamentais importantes. Jovens podem apresentar ansiedade, irritabilidade e frustração intensa quando são impedidos de jogar.

    Em alguns casos, observamos isolamento social, com a substituição de interações presenciais por contatos exclusivamente virtuais, afastamento da família e redução da convivência com amigos. O uso prolongado durante a noite pode ainda comprometer o ciclo do sono, prejudicando a qualidade do descanso e afetando o humor, a concentração e o rendimento escolar.

    A diminuição do foco, o atraso na realização de tarefas e o desinteresse por outras atividades também são sinais frequentes. Em ambientes altamente competitivos, comparações constantes podem contribuir para sentimentos de inadequação e baixa autoestima.

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    Os jogos são concebidos para manter o utilizador envolvido, recorrendo a recompensas rápidas e frequentes, sistemas de competição e rankings online, interação social virtual e atualizações constantes com eventos limitados no tempo. Esses estímulos reforçam a repetição do comportamento e podem dificultar a interrupção da atividade, sobretudo em indivíduos mais vulneráveis.

    Crianças e adolescentes com dificuldades de socialização, jovens com sintomas de ansiedade ou depressão e aqueles que não dispõem de supervisão adequada ou limites claros em casa apresentam maior risco de desenvolver padrões problemáticos.

    Para os pais e educadores, alguns sinais merecem atenção especial, como mentir sobre o tempo de jogo, abandonar hobbies e responsabilidades, apresentar alterações marcantes de humor ou insistir em jogar mesmo quando há prejuízos evidentes no desempenho escolar, no sono ou nas relações familiares. Tal como ocorre com outras dependências, o tempo é um fator decisivo: quanto mais tardia for a procura de apoio especializado, maior pode ser o agravamento dos sintomas e dos danos à saúde mental.

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    É igualmente importante compreender que, em muitos casos, o jogo excessivo não constitui a causa primária do sofrimento psicológico, mas sim um fator que pode agravar problemas pré-existentes, como ansiedade ou depressão não diagnosticadas. Situações graves associadas ao ambiente virtual devem ser analisadas de forma cuidadosa e contextualizada, considerando o histórico emocional do jovem, o ambiente familiar e o acompanhamento adequado.

    Por outro lado, é fundamental reconhecer que os jogos não são, por natureza, prejudiciais. Quando utilizados com equilíbrio, podem contribuir para o desenvolvimento do raciocínio lógico, da coordenação motora, do trabalho em equipe e proporcionar momentos de lazer e socialização.

    O desafio reside em estabelecer limites saudáveis e promover um uso consciente e equilibrado.

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    A intervenção precoce faz toda a diferença. O acompanhamento médico e psicológico ao surgirem os primeiros sinais de alteração comportamental pode prevenir desfechos mais graves. Quadros de ansiedade não tratados podem evoluir para depressão, e pensamentos autolesivos geralmente são precedidos por sinais que podem ser identificados por familiares, amigos e educadores atentos.

    Falar abertamente sobre saúde mental, observar mudanças de comportamento e procurar ajuda especializada são atitudes essenciais para proteger o bem-estar dos jovens.

    * Camila Espínola é psiquiatra do Hospital Quali Ipanema e professora da Faculdade de Medicina Afya Unigranrio

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