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Simples e corriqueiro, exame de creatinina pode resguardar saúde dos rins

Estima-se que 10% da população conviva com algum grau de doença renal crônica, muitas vezes sem saber; conheça valores de referência

Por Cristovam Scapulatempo* 11 mar 2026, 08h00 • Atualizado em 11 mar 2026, 10h36
  • Nos últimos meses, histórias de pessoas conhecidas que descobriram alterações na função renal ganharam espaço na imprensa e nas redes sociais, como o relato do ator Jackson Antunes sobre ter feito um transplante e ter recebido o rim da esposa. Em muitos desses episódios, o ponto de partida foi um exame de sangue aparentemente rotineiro que revelou um alerta importante: níveis elevados de creatinina.

    Como médico, vejo esse tipo de repercussão com atenção e como uma oportunidade. Na prática clínica, não é raro que alterações nos rins sejam descobertas de forma silenciosa, em exames feitos por outros motivos. Isso acontece porque a perda da função renal costuma evoluir de maneira lenta e sem sinais evidentes no início, o que faz com que muitos pacientes só procurem avaliação quando o problema já está em estágio mais avançado.

    Dados do Ministério da Saúde mostram que a doença renal crônica vem gerando impacto crescente no Brasil, com aumento expressivo das internações relacionadas à condição nos últimos anos. Além disso, estima-se que 10% da população conviva com algum grau da condição, muitas vezes sem saber. Sintomas como inchaço nas pernas, fadiga, alterações na frequência urinária ou pressão arterial elevada tendem a aparecer apenas quando a função dos rins já está significativamente comprometida.

    Além das doenças que comprometem progressivamente a função renal, também é importante lembrar que os rins podem ser acometidos por tumores. O câncer de rim representa cerca de 2% a 3% de todos os tumores diagnosticados no mundo, com aproximadamente 430 mil novos casos por ano, segundo o Global Cancer Observatory.

    No Brasil, de acordo com o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, as internações relacionadas à condição aumentaram significativamente nas últimas décadas, passando de cerca de 84 mil registros em 2010 para mais de 140 mil em 2023, refletindo o impacto crescente da doença na população.

    O que é a creatinina e como ela funciona no organismo?

    Do ponto de vista médico, a creatinina é um dos exames mais utilizados para avaliar a saúde dos rins e costuma ser um dos primeiros indicadores observados quando investigamos possíveis alterações na função renal. É uma substância produzida naturalmente pelo metabolismo muscular, resultado da degradação da creatina — molécula responsável por fornecer energia para os músculos durante as atividades do dia a dia.

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    Todos os dias, o corpo produz creatinina de forma relativamente constante. A substância circula na corrente sanguínea e é filtrada pelos rins, sendo eliminada pela urina. Quando os rins estão funcionando adequadamente, a creatinina é removida do organismo sem dificuldades.
    Por outro lado, quando há comprometimento da função renal, essa filtragem pode se tornar menos eficiente, levando ao acúmulo da creatinina no sangue.

    É justamente por isso que sua dosagem em exames laboratoriais se tornou um parâmetro tão relevante para avaliar se os rins estão desempenhando corretamente sua função de filtrar o sangue e eliminar resíduos do metabolismo.

    Na rotina de atendimento, esse exame costuma ser interpretado em conjunto com outros parâmetros laboratoriais, como ureia, exame de urina, taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e, quando necessário, exames de imagem que ajudam a avaliar possíveis alterações estruturais nos rins.

    Valores de referência

    Os níveis de creatinina podem variar de acordo com fatores como idade, sexo, massa muscular e metodologia laboratorial. Em geral, os que são considerados dentro da faixa de normalidade são:

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    • Homens: aproximadamente 0,7 a 1,3 mg/dL
    • Mulheres: aproximadamente 0,6 a 1,1 mg/dL

    Fatores relativamente comuns, como desidratação, atividade física intensa, alimentação rica em proteínas ou o uso de determinados medicamentos, também podem provocar elevações temporárias da creatinina.

    Por isso, a interpretação do resultado sempre deve considerar o contexto clínico do paciente, incluindo seu histórico de saúde, a presença de doenças como diabetes ou hipertensão, o uso de medicamentos e até hábitos de vida que possam influenciar o exame.

    Creatinina e câncer de rim

    Embora a creatinina seja um marcador da função renal, ela não é um marcador tumoral. Ou seja, níveis elevados não indicam necessariamente a presença de câncer.

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    No entanto, alterações nesse exame podem ocorrer em alguns pacientes com câncer de rim, principalmente quando o tumor interfere no funcionamento do órgão. Isso ocorre porque o crescimento do tumor pode comprometer o tecido renal responsável pela filtração do sangue ou provocar obstruções no fluxo urinário. Nessas situações, a capacidade de eliminação de substâncias como a creatinina pode diminuir, elevando seus níveis no organismo.

    Além disso, cirurgias para retirada parcial ou total do rim e alguns tratamentos oncológicos também podem afetar a função renal, o que exige monitoramento frequente da creatinina durante o acompanhamento médico.

    Quais exames ajudam no diagnóstico do câncer de rim

    O diagnóstico do câncer de rim raramente é feito apenas por exames laboratoriais. Testes de creatinina e análise de urina fazem parte da investigação clínica, pois ajudam a avaliar a função renal e possíveis alterações associadas e são seguidos por exames de imagem como:

    • Ultrassonografia abdominal: frequentemente o primeiro exame solicitado, pois permite visualizar alterações estruturais nos rins e identificar a presença de massas
    • Tomografia computadorizada: considerada um dos exames mais precisos para diagnóstico e estadiamento do câncer renal
    • Ressonância magnética: utilizada em situações específicas, principalmente quando é necessária uma avaliação mais detalhada dos tecidos
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    Um ponto em comum em muitas das histórias que vemos ganhar espaço na imprensa é simples: um exame de rotina que revelou a creatinina alterada. Para quem está fora do consultório, pode parecer apenas mais um número em um resultado laboratorial. Para nós, médicos, esse pequeno marcador muitas vezes é o primeiro sinal de que os rins merecem atenção. Em doenças que frequentemente evoluem de forma silenciosa, reconhecer esses alertas precoces pode transformar um achado casual em uma oportunidade de investigação e acompanhamento antes que a doença avance.

    *Cristovam Scapulatempo, diretor médico de Patologia e Genômica na Dasa

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