Apesar da clara evidência sobre os males do cigarro para o sistema cardiovascular, uma pesquisa da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) revelou que a grande maioria das pessoas não tem consciência desta relação. As campanhas antitabagismo, que se intensificaram a partir do final da década de 1990, talvez tenham deixado de enfatizar uma informação relevante para a população: o pulmão não é o único órgão prejudicado pelo cigarro.
O coração concorre como o mais afetado pela liberação de adrenalina provocada pela nicotina, que acelera o ritmo cardíaco, aumenta o consumo de oxigênio e a pressão arterial, além de produzir danos às paredes das artérias, favorecendo aterosclerose. Essas circunstâncias podem levar ao infarto e à morte súbita.
No Brasil, fatalidades por causas cardiovasculares derivadas do tabaco respondem por 33 mil óbitos por ano, segundo dados do Ministério da Saúde. O fumante tem o risco de morte súbita até quatro vezes maior do que não fumantes. Trata-se da maior causa evitável de mortes no mundo.
Porém, 90% dos entrevistados ouvidos pela pesquisa da Socesp parecem não saber disso. Quando questionados sobre quais fatores podem aumentar o risco de doenças cardíacas, somente 10% apontaram o cigarro. A desinformação preocupa a comunidade médica. Tanto que a pauta será um dos temas do 44º Congresso de Cardiologia da Socesp, que acontece até este sábado, 1, e reúne lideranças da cardiologia do país e especialistas internacionais em São Paulo.
O evento coincide com o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado nesta sexta-feira, 31, campanha criada pelos Estados membros da Organização Mundial da Saúde (OMS). A data, que tem por objetivo chamar a atenção para os danos do tabagismo, é ainda mais providencial nesses tempos em que o cigarro eletrônico virou febre mundial e corrobora grandemente para os danos à saúde dos adeptos, em sua maioria jovens. Os consumidores dessa modalidade apresentam índices de nicotina no organismo equivalentes aos de fumantes de mais de 20 cigarros convencionais por dia.
O vape, inclusive, pode ser o responsável pelo ligeiro aumento daqueles que se declararam fumantes ou fumantes passivos nessa última edição da pesquisa da Socesp — respectivamente, 21 e 23% — em relação à anterior, quando 20,3% afirmaram serem fumantes e 22% fumantes passivos. Este trabalho da entidade, que acaba de ser tabulado, foi realizado com 2.764 pessoas, nas cidades de Araçatuba, Araraquara, Bauru, Osasco, Ribeirão Preto, São Carlos, São José do Rio Preto, Sorocaba, Vale do Paraíba e na capital paulista.
Entre os entrevistados, 23% tinham acima de 55 anos; 14% entre 44 e 54 anos; 17% de 35 a 44 anos; 20% de 25 a 34 anos; 25% de 15 a 24 anos e 1% da amostragem tinham menos de 14 anos. Dos respondentes, 58% eram mulheres.
Saúde e tabaco não combinam
Não devemos virar as costas para uma realidade: fumar é um vício e por isso, apagá-lo de vez requer ajuda profissional, na maioria das vezes. Estimativas da Socesp, com base em estudos nacionais e internacionais, mostram que apenas entre 3 e 5% daqueles que tentam parar sem ajuda são bem-sucedidos.
E não é difícil entender porque: independente dos malefícios à saúde que comprovadamente o tabagismo causa, existe uma recompensa cognitiva prazerosa gerada pela nicotina. Por isso, a cada nova tragada, o fumante estimula a reincidência fazendo com que deixar o cigarro leve a sensações de irritação, ansiedade, depressão e insônia, entre outras. Isso torna a abstinência complexa.
Os tratamentos disponíveis, com acompanhamento médico, incluem reposição de nicotina e medicamentos prescritos caso a caso, de acordo com o perfil de dependência do paciente. São terapias que duram, em média três meses, mas têm chances muito maiores de serem efetivas. E o ex-fumante ganha, literalmente e em pouco tempo, novo fôlego para uma rotina mais saudável.
* Jaqueline Scholz é especialista em tratamento do tabagismo e assessora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp)