Laços suspeitos
Banco Master rachou a República: Judiciário, governo e Congresso estão em conflito aberto
— Alexandre, vou ler a versão final…
Ao telefone, o juiz Alexandre de Moraes ouviu com atenção José Antonio Dias Toffoli, então presidente do Supremo Tribunal Federal.
Toffoli lapidava havia meses a ideia de uma ação de autodefesa do tribunal. Fator decisivo no convencimento interno foi um relatório sobre possível espionagem de famílias de outros juízes do STF que, como ele, integravam uma espécie de frente contra a Operação Lava-Jato em Curitiba, São Paulo e Rio. Para ele, Moraes tinha “a coragem e o preparo necessário”, contou anos depois.
— Então, você aceita?
— Sim, mas só não vou aceitar interferência no meu trabalho — avisou Moraes, com ironia.
— Claro, nem eu quero ter compromisso com seus erros — retrucou Toffoli com sarcasmo. — Se tiver de corrigir, corrijo.
Moraes virou relator de um inquérito criminal tão amplo quanto o cardápio de atribuições do Supremo, sobre a “existência de notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações, que atingem a honorabilidade do STF, de seus membros e familiares”.
Foi em março de 2019, na semana seguinte ao Carnaval, quando a Mangueira ainda celebrava a vitória no Sambódromo com o enredo Histórias para Ninar Gente Grande (“Brasil, meu nego / Deixa eu te contar / A história que a história não conta / O avesso do mesmo lugar…”).
O Inquérito das Fake News, como ficou conhecido, ganhou o selo “Segredo de Justiça”. Vai completar sete anos sob máximo sigilo. Foi ampliado por Moraes na semana passada para apurar suspeitas de vazamento de dados fiscais e bancários de pessoas próximas a juízes do STF. Familiares de Toffoli e Moraes têm sido ligados a contratos com o Banco Master, acionistas e/ou associados. A despeito da aparente legalidade dos negócios, ficou notório o incômodo no tribunal. Moraes pôs no alvo órgãos governamentais como a Receita e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), vinculado ao Banco Central.
“Banco Master rachou a República: Judiciário, governo e Congresso estão em conflito aberto”
Conflitos entre Judiciário, governo e Congresso são latentes. Master é o nome da crise, que deve crescer nesta fase da temporada eleitoral. O banco privado foi flagrado em fraude bilionária e está vinculado a estranhas transações financeiras, aparentemente para lavagem de dinheiro de máfias.
É notável como o caso Master rachou a República. Pela caneta de Toffoli, por exemplo, o Supremo emitiu decisões acirrando embates, até então encobertos, com a Polícia Federal, o Coaf, a Receita e o Banco Central, entre outros.
No governo acusa-se a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ligada ao Ministério da Fazenda, de omissão no controle de fundos de investimentos desviados para o crime organizado. Outros criticam eventual letargia do Banco Central, porque o Master já estava exposto na praça como caso de gestão temerária.
Do lado do BC, estranhou-se a interferência “indevida” de Toffoli — em tese, suspeito no caso — para retirar a investigação da fraude do Master do juízo de primeira instância em São Paulo e levar para o STF, sob máximo sigilo. Também se considerou esdrúxula a ingerência do Tribunal de Contas da União, órgão auxiliar do Congresso — inusitada na história de 800 liquidações já realizadas. Pela primeira vez, 650 empresas financeiras privadas se preocuparam em apoiar o Banco Central contra a intervenção de outros organismos de Estado.
No Congresso não se acredita nas justificativas do STF e do TCU para intromissão no caso Master. Ali, também, sobram conflitos. Aliados do governo atacam o voluntarismo de dirigentes do Progressistas, do União Brasil e do Republicanos na montagem de uma frente parlamentar para manobras de dissimulação do luxuoso investimento político do Master num emaranhado de laços em Brasília e nos principais colégios eleitorais de dezoito estados. Já a oposição planeja listar em comissões de inquérito o repertório de enlaces de Vorcaro & cia. nos estados dominados pelo Partido dos Trabalhadores, com foco especial na Bahia do tempo do governo Rui Costa, atual chefe da Casa Civil de Lula.
Seja como for, qualquer investigação sobre o caso Master somente será confiável se responder objetiva e detalhadamente ao menos a duas perguntas-chave: (1) como e por que se permitiram as fraudulências em série de Vorcaro & cia. por quase uma década?; (2) onde foi parar a grana dessa maracutaia bilionária (mais de 40 bilhões de reais)?
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Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979







