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Informação e análise

Jogo de bilhões

Dono do Master não doava, distribuía dinheiro nos bastidores do poder em Brasília

Por José Casado Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 jun 2026, 06h00 | Atualizado em 19 jun 2026, 10h49
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O suave aroma de cerejeiras em flor na primavera parisiense invadiu o jantar de Ciro Nogueira, senador, ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro e presidente do partido Progressistas. À saída, ele nem precisou se preocupar com a conta de 121 500 reais.

O roteiro daquele abril de 2024, escolhido pelo amigo banqueiro, previa também périplos noturnos por ambientes enfumaçados, decorados em vermelho-pecado, com mesa íntima para duas pessoas ao custo de cinco salários mínimos — comida, bebidas e gorjetas à parte.

Maio foi em Lisboa, com dias longos, secos, céu de azul sublime e múltiplos fóruns de brasileiros inebriados na ficção útil de localizar no passado uma ponte para o futuro do Brasil.

— Vou precisar do hotel (Four Seasons), de segunda a sábado — disse ao secretário o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em mensagens resgatadas pela polícia. — Preciso (de) mais dois quartos lá… Ciro (Nogueira) e Hugo (Motta, presidente da Câmara dos Deputados).

— O.k. Tem a lista de homens? Senão, como saberemos quem pode entrar de homem?

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O banqueiro relaciona:

— Fábio Faria (ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro); Hugo Motta (deputado federal); Ciro Nogueira (senador); Luizinho (Luiz Antonio Teixeira Jr., deputado federal); Bruno Ferrari (acionista da Oncoclínicas); eu…

A conta de hospedagem ultrapassaria 90 000 reais por cabeça. Vorcaro estava preocupado com a privacidade:

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— A gente não pode deixar acontecer igual aconteceu em Nova York… Que venham pessoas, falam que vai pegar um elevador para outro andar, e clica lá no nosso andar. Tem que ficar alguém dentro elevador…

No maio anterior todos estiveram em Nova York, onde também florescem fóruns de brasileiros debatendo problemas seculares do Brasil. Aquela primavera nova-iorquina foi inesquecível para Cláudio Castro, então governador do Rio. Ele se apaixonou por um filé banhado em ouro de 24 quilates. O bife custou 10 000 reais. Vinho, sobremesa e café, outros 50 000 reais.

Mais tarde, um grupo de quinze amigos do cartão de crédito de Vorcaro esticou a noite num clube de jazz, onde se pode fumar e beber sem culpa. Na entrada, brut francês de 3 380 reais. Depois, uísque irlandês de 5 000 reais a garrafa. Por fim, conhaque francês de 2 800 reais para acompanhar a queima de charutos dominicanos de 1 100 reais cada. A conta total ficou em 5,2 milhões.

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“Dono do Master não doava, distribuía dinheiro nos bastidores do poder em Brasília”

A primavera nova-iorquina rendeu um dos melhores negócios já feitos por Vorcaro. Ele pagou um jantar de 60 000 reais para o governador fluminense e, no almoço seguinte, recebeu 80 milhões de reais do fundo de previdência dos servidores estaduais para aplicação em títulos Master — resgatáveis somente no endereço imaginado pelo poeta Vinicius de Moraes: Rua dos Bobos, Número Zero. Lucrou 1 300 em cima de cada real que investiu no prato, no copo e no prazer do governador do Rio.

Vorcaro se distinguiu pela ousadia nos laços com o condomínio do poder. Não doava, distribuía dinheiro. Aceitava pedido de 134 milhões de reais do candidato presidencial do Partido Liberal, Flávio Bolsonaro. Requisitava consultoria de um ex-­presidente da República, Michel Temer, e de um ex-presidente do STF, Ricardo Lewandowski. Comprava a parte do juiz Dias Toffoli num hotel, enquanto contratava escritório familiar de outro juiz do Supremo, Alexandre de Moraes.

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Enlaçou tanto ministros e ex-ministros, como Rui Costa, Walfrido Mares Guia, Guido Mantega e Flávia Péres, quanto líderes do Centrão e do Partido dos Trabalhadores, como Ciro Nogueira (PP), Antonio Rueda (União Brasil) e Jaques Wagner (PT).

Usou todas as moedas disponíveis, inclusive festas com mulheres bonitas em pouca ou nenhuma roupa, recrutadas no Leste Europeu. Corrompeu executivos do Banco Central, pagou altas comissões na Faria Lima e montou uma pirâmide financeira de 800 000 clientes. Os prejuízos superam 80 bilhões de reais.

Vorcaro sonhou o sonho de lobistas: mudar a Constituição para benefícios privados. O projeto do Master foi chancelado pelo senador Ciro Nogueira. Passou despercebido num Legislativo que reescreve a Carta a cada trimestre (já são 139 emendas). A proposta foi rejeitada no Senado e ressuscitou na Câmara pelas mãos do deputado Filipe Barros, líder da bancada bolsonarista. Na prisão, Daniel Vorcaro, 42 anos, agora resolveu apostar no tempo. Acha que até as eleições amigos do seu cartão de crédito conseguem retirá-lo da cadeia.

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Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

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