Efeitos da guerra no bolso dos eleitores complicam campanha de Lula
Há expectativa de mais inflação de alimentos, numa conjuntura em que 53% dos eleitores se queixam de que a renda não acompanha a alta dos preços
Está ruim para todo mundo, mas para Lula parece pouco pior. O cenário para a reeleição presidencial nesta segunda quinzena de março pode ser resumido assim:
1) As pesquisas dos últimos doze meses contam uma história de rejeição eleitoral recorde, imobilizada na faixa dos 40% e só comparável à do adversário Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, reconhecido como candidato da extrema direita;
2) Lula está em posição parecida com a de Jair Bolsonaro em março de 2022: não preparou o governo para uma campanha de reeleição balizada pelos danos colaterais de uma guerra;
3) Se a invasão do território ucraniano surpreendeu o governo brasileiro, a guerra atual contra o regime ditatorial dos aiatolás ficou previsível desde meados do ano passado com os bombardeios em cidades iranianas.
4) Sem plano “A”, “B” ou “C”, coerente e consistente com o caixa do governo, Lula começa enfrentar dificuldades para mitigar efeitos da alta de preços do petróleo — aproximadamente 60% nas últimas quatro semanas;
5) A percepção das incertezas sobre escolhas do governo num calendário eleitoral demarcado pelos efeitos da guerra já provocou um terremoto no mercado financeiro. Entre segunda e terça-feira (17/3), o Tesouro Nacional gastou cerca de 43 bilhões de reais na recompra de títulos públicos. O resgate em volume sem precedentes foi uma tentativa de conter apostas numa escalada de juros, em consequência da alta do petróleo.
6) A perspectiva é de alta dos preços do diesel, insumo que representa quase 40% dos custos do frete rodoviário numa economia absolutamente dependente dos comboios de caminhões;
7) O aumento de custo do diesel já se materializa na especulação em parte dos 60 mil postos de abastecimento, indicando que o recém-anunciado corte de impostos federais deve influir no balanço financeiro da Petrobras e de outras empresas importadoras de combustíveis, mas não deve impedir efeitos corrosivos da guerra no bolso dos eleitores, ou, como Lula diz, “no bolso do motorista, no bolso do caminhoneiro; e, não chegando ao bolso do caminhoneiro, não vai chegar ao prato de feijão, à salada do alface, da cebola e à comida que o povo mais come”.
Essas circunstâncias adicionam complicadores à campanha de reeleição.
Um deles é a expectativa de mais inflação de alimentos, numa conjuntura em que 53% dos eleitores se queixam de que a renda pessoal e familiar não acompanha a alta dos preços, mostram pesquisas como a divulgada pela Quaest.
Outro é a possibilidade de confusão no sistema nacional de transporte de cargas com mobilizações de empregados e empresários donos de frotas de caminhões. O alvo do protesto, por óbvio, será o governo.
Se telefonasse ao ex-presidente Michel Temer, Lula poderia perguntar-lhe sobre a experiência com o bloqueio das estradas no ano eleitoral de 2018. Mas essa conversa é improvável, porque predominam idiossincrasias.
Lula também pode chamar Marcio França. Ele governava São Paulo na época da crise e, hoje, é ministro do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Coincidência ou não, depois do tumulto rodoviário, França se tornou o primeiro governador paulista derrotado numa tentativa de reeleição.





