K-drama da Netflix faz público questionar transtorno raro
Discussões sobre a protagonista reacenderam o interesse pelo Transtorno Dissociativo de Identidade, condição rara ligada a traumas na infância
O k-drama O Amor Pode Ser Traduzido?, da Netflix, reacendeu nas redes sociais um debate pouco comum fora dos consultórios: o transtorno dissociativo de identidade (TDI). Enquanto fãs de k-dramas discutem teorias sobre a protagonista, especialistas em saúde mental têm sido solicitados para dar explicações sobre até que ponto a ficção se aproxima da realidade clínica.
O interesse do público cresceu ao mesmo tempo que a série ganhava audiência na plataforma. Lançado no dia 16 de janeiro, o drama permaneceu duas semanas entre os dez títulos de língua não-inglesa mais vistos da Netflix no mundo, alcançando o primeiro lugar do ranking global na segunda semana, com cerca de nove milhões de visualizações no período. A série marcou a volta do ator Kim Seon-ho (Hometown cha-cha-cha) aos papéis de protagonista em comédias românticas.
Na trama, a atriz Mu-hee (Go Youn-jung) encontra uma espécie de abrigo emocional em Do Ra Mi, personagem que ela interpreta em um filme dentro da própria história principal. O papel impulsiona sua carreira, mas gradualmente passa a interferir na maneira como Mu-hee se percebe, condição que levou parte do público a associar o comportamento da protagonista ao TDI.
Segundo o médico Maurício Okamura, coordenador de Saúde Mental da Rede Total Care, embora o transtorno seja frequentemente citado nas discussões sobre a série, a narrativa não corresponde a um retrato clínico do TDI. A doença é uma condição rara e complexa, caracterizada pela presença de duas ou mais identidades distintas, acompanhadas de lacunas de memória e prejuízo significativo no funcionamento emocional e social. Estima-se que afete cerca de 1% a 2% da população mundial, estando geralmente associada a traumas graves e repetidos na infância. Para Okamura, a persona apresentada no k-drama funciona como um recurso simbólico, e não como manifestação clínica do transtorno.
“Na série, não há apagões de memória nem alternância involuntária entre estados de identidade, que são critérios centrais do TDI. Do Ra Mi (a personagem) representa uma estratégia emocional consciente, ligada ao enfrentamento de rejeição, insegurança e dor psíquica decorrentes de experiências traumáticas”, explica, acrescentando a importância de diferenciar ficção e realidade clínica: “A licença poética cria trocas visíveis e quase teatrais. Na vida real, o transtorno costuma ser silencioso, marcado por lapsos de tempo e pela sensação de perda de continuidade da própria história.”
O médico explica que vivências adversas na infância podem levar à chamada fragmentação emocional, um processo no qual diferentes aspectos da personalidade se organizam como forma de proteção. Esse fenômeno, por si só, não é necessariamente patológico. Humor excessivo, teatralidade ou forte controle da própria imagem podem surgir como mecanismos de adaptação em contextos afetivos instáveis.
Já Marília Batarra, coordenadora das Linhas de Cuidado em Saúde Mental da Amil: experiências precoces de negligência ou violência deixam marcas profundas na forma como o indivíduo constrói sua identidade e regula emoções:
“Isso não significa, automaticamente, o desenvolvimento de um transtorno mental, mas evidencia o impacto do ambiente na organização emocional. No k-drama, essa dinâmica aparece de forma simbólica, com Do Ra Mi funcionando como metáfora de tentativa de integração de partes fragmentadas da protagonista”.
Estudos internacionais reforçam essa relação. Uma pesquisa publicada no Australian & New Zealand Journal of Psychiatry aponta que eventos potencialmente traumáticos na infância (como abuso, violência, acidentes graves e exposição a desastres) influenciam diretamente o desenvolvimento emocional ao longo da vida, afetando vínculos, regulação emocional e respostas ao estresse.
Para os especialistas, o principal risco está em confundir metáforas ficcionais com diagnósticos clínicos:
“Personagens ajudam a refletir e gerar empatia, mas diagnóstico e tratamento devem sempre ser realizados por profissionais qualificados”, reforça Marília.
Ainda assim, os especialistas acreditam que produções como O Amor Pode Ser Traduzido? cumprem um papel relevante ao ampliar o debate público sobre saúde mental, estimular o vocabulário emocional e incentivar a busca por informação qualificada e cuidado especializado.





