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A sangue quente

Cada um numa ponta, Bolsonaro e Haddad correm contra o tempo

Por Dora Kramer 14 set 2018, 07h00

Senhor da razão nesta eleição que nada tem de racional, o tempo assume daqui em diante papel crucial para Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Considerando o fim do horário eleitoral no rádio e na televisão em 4 de outubro, ambos contam com não mais de vinte dias para dar conta da tarefa que poderá lhes garantir, ou não, assento no segundo turno.

Representantes de extremidades (não necessariamente opostas no tocante ao objetivo), cada qual corre para um lado: Bolsonaro para derrubar a rejeição e Haddad para elevar a aprovação de que dispõe junto ao eleitorado. Embora voe para todos os demais candidatos embolados no quesito intenção de voto, para o deputado e para o ex-prefeito o tempo ruge forte.

Enquanto aos adversários bastam alguns pontos porcentuais nas pesquisas a fim de que não percam a condição de competitivos, nossos dois personagens travam uma batalha muito mais complicada. Inclusive porque a eles não é suficiente passar para a etapa final. Qualquer deles (ou, por hipótese, ambos) que chegar lá terá de romper o isolamento erguido em relação aos outros oponentes e negociar alianças. Diálogo de difícil construção, uma vez que suas candidaturas falam o idioma das camadas mais radicalizadas da sociedade.

Antes disso, porém, vão precisar quebrar umas pedras bem duras para remover obstáculos. O de Bolsonaro, a rejeição de quase o dobro da aceitação, também duas vezes superior à da maioria dos oponentes. Ele não está em primeiro lugar por representar a tão almejada renovação. Está no topo pelo anseio de que o autoritarismo seja supostamente o garantidor da ordem, do progresso e do bem-estar.

É uma ideia de demanda restrita a um nicho. Grande, mas ainda assim limitado. Bolsonaro não tem crescido à velocidade dos cometas. Em junho tinha 17% das intenções de voto; subiu 7 pontos, enquanto ganhou rejeição em igual proporção, mesmo contando com acréscimo substancial de exposição em decorrência do atentado sofrido. Ele tem vinte dias para tentar dissolver o repúdio e transformar ao menos parte dele em aprovação. Talvez lhe faltem instrumentos para amenizá-lo sem correr o risco de perder os que o enxergam como solução exatamente por recrudescer.

Fernando Haddad não está na disputa por ser popular nem devido a quaisquer atributos pessoais e/ou profissionais. Sua vaga é a de preposto, e a essa condição parece perfeitamente adaptado. A boa notícia para ele é ter duplicado suas intenções de voto nas pesquisas depois da formalização da exclusão de Lula. Saiu do campo dos nanicos para transitar no terreno dos competitivos. Mas precisa de muito mais: atrair por osmose os eleitores do chefe.

Ocorre que esse pessoal é disputado por um rol de, no mínimo, quatro candidatos e, no máximo, por todos os outros, a depender da motivação do eleitorado, que, diga-se, não é composto só de seguidores fiéis ao poder da transmutação automática. Nesse grupo, há os crentes, mas há os racionais. É a esses que Haddad tem vinte dias para convencer de que será um poste melhor que Dilma Rousseff.

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2018, edição nº 2600

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