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Dias Lopes

Por Coluna
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O doce da fé

Como uma chuva de estrelas, que caiu há doze séculos, originou a Torta de Santiago, uma das sobremesas mais preparadas no mundo

Por J.A. Dias Lopes Atualizado em 30 jul 2020, 22h12 - Publicado em 1 ago 2016, 20h08
O doce: preparado desde a Idade Média, virou souvenir dos peregrinos

O doce: preparado desde a Idade Média, virou souvenir dos peregrinos

Assombrado com as chuvas de estrelas que despencavam sobre o bosque de Libredón, na Galícia, hoje comunidade autônoma da Espanha, um eremita chamado Pelayo procurou o bispo da região, no ano 813. Sua impressão era tratar-se de manifestação sobrenatural. O bispo reuniu um pequeno séquito, dirigiu-se ao local e constatou a veracidade do relato.

No meio da vegetação foi descoberta uma urna de mármore na qual existiam restos mortais identificados como sendo de Santiago ou São Tiago Maior, um dos doze apóstolos de Jesus Cristo. Irmão de São João Evangelista, ele havia sido decapitado no ano 44 da nossa era, em Jerusalém, por ordem de Herodes Agripa I, rei da Judéia. Portanto, a tradição popular católica gegistra há doze séculos a história dessa descoberta.

O fenômeno luminoso, que para intérpretes modernos seriam chuvas de meteoros, fez o lugar ser chamado de Campus Stellae (Campo das Estrelas) e, a seguir, Santiago de Compostela. Para celebrá-lo, foi erguida uma capela em louvor do santo, transformada em igreja e, depois, entre os anos 1075 e 1112, em imponente catedral de estilo pré-românico. Desde então, tem sido um dos maiores centros de peregrinação do mundo. No catolicismo, só Roma e Jerusalém o superariam em afluência.

Detalhe da catedral galega dedicada ao santo: centro mundial de romaria

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Os peregrinos aparecem o ano inteiro. Muitos percorrem a pé os chamados Caminhos de Santiago – trajetos europeus que levam à catedral de Santiago de Compostela. O ápice das romarias acontece a 25 de julho, festa do santo, padroeiro da Galícia, da Espanha, do Chile, da Guatemala e de Nicarágua. Por sinal, caiu no final da semana passada. É dia em que os sinos dobram, há missas solenes, exposições de arte, representações teatrais e concertos musicais.

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Os devotos acreditam que ir a Santiago de Compostela é uma experiência mística prodigiosa: mexe com a sensibilidade, revigora a fé, alarga e aplaina a estrada do céu. Os peregrinos deixam a cidade enlevados e, ao mesmo tempo, fascinados pelo seu ícone gastronômico: a imperdível Torta de Santiago.

A receita desse doce leva amêndoas moídas, farinha de trigo, açúcar, ovos, canela e raspas de limão-siciliano. Antes de ser partida, a torta recebe no alto, em açúcar de confeiteiro, com auxílio de um molde, a silhueta da Ordem Militar de Santiago. Essa instituição, hoje honorífica, foi instituída por Afonso VIII de Castela e aprovada pelo Papa Alexandre III, em bula de 1175.

Conforme a tradição, os restos de Santiago foram parar em Santiago de Compostela graças a uma série de fatos históricos. Após a crucificação de Jesus Cristo, os apóstolos se dispersaram pelo mundo, pregando o cristianismo. São Tiago escolheu a Galícia, na antiga Hispânia (nome dado à Península Ibérica pelos romanos), onde teria estado nos anos 36–37 ou 40. Retornando à Judeia, foi preso e martirizado.

O santo, em pintura de Rembrandt: seus restos estavam escondidos em um bosque

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Seguindo o costume da época, os discípulos colocaram seus restos em uma urna de mármore e devolveram à região do último apostolado. Viajaram em uma embarcação e o sepultaram na Galícia. Com o endurecimento da perseguição aos cristãos da Hispânia, pelos romanos, seu túmulo foi abandonado no século III e o local caiu no esquecimento. Foi redescoberto pela chuva de estrelas.

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Desde a Idade Média, Santiago de Compostela prepara a Torta de Santiago. Os peregrinos a consomem na cidade e, quando vão embora, levam a sobremesa como souvenir. Isso a torna uma das mais preparadas no mundo. Nem sempre a Torta de Santiago teve a designação atual. Originalmente, chamava-se Bizcocho de Almendra. Assim a designa um relato de 1577.

Continuou a ter o nome primitivo no “Cuaderno de Confitería”, de Luis Bartolomé de Leybar, de 1838. No final do século 19, porém, mudou para Tarta (Torta, em português) de Alméndro. Mas livros culinários espanhóis do século 20 a consagraram definitivamente como Torta de Santiago. Assim foi mencionada em 2006, ao merecer o status de produto de Indicação Geográfica Protegida (IGP), conferido pela União Européia

Quando industrializada, a Torta de Santiago apresenta textura consistente, granulada e deve ser consumida em até três meses. Se artesanal, revela-se mais úmida e macia, a validade fica restrita a uma semana. Ninguém explica como ela surgiu. Pode ter sido criada por um devoto do santo; ou por um peregrino que percorreu os Caminhos de Santiago; ou, ainda, por um doceiro local. Seus apreciadores, entretanto, garantem que o sabor é sempre divino.

RECEITA: TORTA DE SANTIAGO

Rendimento: 12 porções

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INGREDIENTES

  • Massa
  • 1 ovo
  • 1 colher (chá) de canela em pó
  • 135g de açúcar
  • 135g de farinha de trigo
  • Manteiga para untar
  • Farinha de trigo para polvilhar
  • Recheio
  • 4 ovos
  • 270g de açúcar
  • 1 colher (chá) de canela em pó
  • 1 colher (sopa) de casca de limão-siciliano ralada
  • 360g de amêndoas sem pele, moídas
  • Açúcar de confeiteiro para polvilhar

PREPARO

Massa

·       Numa tigela grande, bata o ovo com a canela e o açúcar até ficarem bem incorporados.

·       Aos poucos, acrescente a farinha, mexendo, para obter uma massa homogênea.

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·       Abra uma película de plástico sobre a mesa de trabalho, polvilhe a película com farinha de trigo, disponha a massa em cima e cubra com outra película de plástico, também enfarinhada.

·       Com um rolo, abra a massa até a espessura de 2mm.

·       Unte com manteiga e enfarinhe uma fôrma de fundo móvel, de 24cm de diâmetro. Forre o fundo com a massa, retirando as películas plásticas.

Recheio

·       Numa tigela, bata bem os ovos, o açúcar, a canela e a casca de limão. Acrescente as amêndoas moídas (reservando 1/3 de xícara) e torne a bater, até a mistura ficar homogênea.
FINALIZAÇÃO

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·       Despeje o recheio sobre a massa e polvilhe com as amêndoas moídas reservadas. Asse em forno quente, preaquecido a 200ºC, por cerca de 40 minutos, ou até dourar.

·       Deixe esfriar e desenforme. Coloque no centro da torta um molde da cruz da Ordem de Santiago e pulverize a torta com açúcar de confeiteiro. Retire o molde na hora de servir.

 

Receita preparada pelo restaurante Don Curro, de São Paulo, SP, tel. (11) 3062-4712.

 

 

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