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Por Diogo Sponchiato
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A arte de traduzir um prêmio Nobel

Um dos responsáveis por verter ao português a obra do norueguês Jon Fosse, o atual laureado em Literatura, expõe as particularidades desse grande autor

Por Diogo Sponchiato Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 9 Maio 2024, 12h33 - Publicado em 8 abr 2024, 15h44

Os destinos do escritor e do seu tradutor já estavam cruzados. Leonardo Pinto Silva vivia na mesma cidade de Jon Fosse na Noruega quando o prêmio Nobel de Literatura publicou A Casa de Barcos. Hoje, 35 anos depois, o brasileiro nos oferece a edição em português do mesmo livro, recém-publicado pela Editora Fósforo.

Coincidência ou não, fato é que, graças ao trabalho de Silva, agora podemos desfrutar da obra desse autor que escreve numa variação do norueguês e tem uma prosa obsessivamente hipnótica.

Fosse fez música, teatro, poesia, romance… Em A Casa de Barcos, lançado originalmente em 1989, um encontro entre dois amigos de infância na rua de uma pequena cidade às margens dos fiordes propulsiona toda uma teia de memórias e coloca o protagonista em um estado de angústia. Para tentar escapar dela, ele se isola e escreve.

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A escrita pode remediar suas aflições? Bom, aí é se enredar nesse romance em que a cadência obsessiva do narrador nos instiga a segui-lo frase por frase, entre passado e presente, presente e passado, entre os momentos da infância dentro da casa de barcos do título e os conflitos da vida adulta, essa vida que nos incita a rever, a duras penas, sua trajetória.

Felizmente, podemos ser hipnotizados pela prosa de Fosse em português. Com a palavra, o tradutor.

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Como você chegou à literatura nórdica? O que o motivou a traduzir autores escandinavos?

Foi absolutamente por acaso. Embora sempre tenha sido um leitor voraz, nem sou originalmente graduado em Letras. Vivi na Noruega quando adolescente, por coincidência na mesma cidade do Fosse e no mesmo ano que o livro A Casa de Barcos foi lançado. Nunca imaginei poder usar o idioma voltando ao Brasil, muito menos como profissão.

Mas a Noruega é uma potência literária e tem uma política estatal de fomento literário, em casa e no exterior, muito efetiva. Afirmo sem medo de errar que é o melhor lugar do mundo para ser escritor. Além disso, tem um crescente interesse estratégico no Brasil — tanto em iniciativas de preservação ambiental, como o Fundo Amazônia, quanto em outras que vão na direção oposta, como petróleo e mineração.

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Traduzir literatura, boa literatura como é o caso, é uma fonte inesgotável de aprendizado e prazer. Nos faz perceber o mundo de outras formas, construir pontes onde inicialmente não acreditaríamos ser possível. É pouco reconhecido, mas ainda assim, é tão recompensador que nem parece trabalho.

Quais são os desafios ao transpor Jon Fosse para o português?

Fosse é o quarto Nobel de Literatura norueguês, e o primeiro de expressão em nynorsk, o neonorueguês. Os três outros, Bjørnson, Hamsun e Undset, escreviam na variante majoritária da língua, bokmål, a “língua dos livros”, muito influenciada pelo dinamarquês escrito. Só isso já o torna singular, pois escreve num idioma que é uma amálgama, um tanto artificializada, de dialetos falados na costa do país.

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Não bastasse, ele encontrou seu próprio estilo literário e ignora quaisquer convenções de pontuação. Vírgulas e interrogações são raras, e muito do que escreve não se deve tomar pelo valor de face. No original, a falta de pontuação é menos desafiadora, pois se pode inverter a ordem do verbo na interrogativa, e a frase se mantém. Só que, em português, isso nem sempre funciona.

Fosse já disse mais de uma vez que para ele “escrever é ouvir”. A oralidade é uma marca do seu texto, e procuro manter essa característica, esse estranhamento, na tradução. Dois óbvios vultos de expressão portuguesa sempre me vêm à mente quando faço essa analogia: Guimarães Rosa e Saramago. Fosse é um desses grandes.

Qual é o papel de A Casa de Barcos no percurso literário do autor? Ali já está consolidada sua narrativa hipnótica e obsessiva?

Originalmente músico, dramaturgo — o mais encenado atualmente no mundo — e poeta consagrado, pode-se dizer que foi com esse livro, em 1989, que Fosse se firmou também como prosador e consolidou esse estilo cheio de meandros, reiterativo, de resto um recurso mnemônico da tradição oral que permitiu aos humanos evoluir contando histórias. O livro, um romance de passagem, se tornou naturalmente um preferido dos adolescentes na Noruega e se converteu num paradidático incontornável no ensino médio.

Nele, e também nos Poemas em coletânea, que a Fósforo e o Círculo de Poemas lançarão em breve, já se identificam essas obsessões, e não há melhor termo para descrever a relação do autor com certos temas que permeiam toda sua obra: certas cores, anjos, cães, paisagens naturais de fiordes, montanhas e nuvens. A angústia, a morte e a transcendência. A relação, de início tumultuada e depois pacificada, com a religião. Os verdadeiros artistas apenas se repetem, e muitas construções, temas, embriões e até trechos de obras futuras já se identificam claramente ali.

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