Assine VEJA por R$2,00/semana
Imagem Blog

Coluna da Lucilia

Por Lucilia Diniz
Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação
Continua após publicidade

Sabor de todas as mesas

Botecos disputam prêmio culinário, mas neles a pimenta é rainha

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 3 jun 2024, 16h56 - Publicado em 12 abr 2024, 06h00

Li nos jornais que, ao longo deste mês, frequentadores de bares em várias cidades do país vão escolher seus petiscos favoritos. No concurso, cada estabelecimento participante cria uma receita nova e quem a pede ao garçom tem o direito de votar. Nossa culinária de bar é muito inventiva, então podemos ter certeza: a disputa do prêmio, existente desde 2000, será acirrada.

Também me rendo, de vez em quando, a um tira-gosto. Meu marido e eu temos o costume de, voltando de nossas caminhadas pela cidade, fazer uma pausa para um aperitivo.

Cultivamos esse prazer do mesmo modo nas viagens, como em anos passados, provando as delícias do festival gastronômico de Tiradentes. Ou, de forma muito especial, em passeios por Portugal e Espanha, onde recordamos não ser um acaso termos aqui essa cultura de botequim. As “tapas” e “acepipes” da Península Ibérica se mesclaram em nossas terras a ingredientes locais, derivando em guloseimas cultuadas. E, deste lado do oceano, encontraram ainda a rainha absoluta de toda mesa de bar: a pimenta.

Originária das Américas e levada para a Europa nas naus e caravelas, foi melhorar além-mar os bolinhos de bacalhau e semelhantes. De lá, com o comércio de especiarias, ganhou o mundo. Do outro lado do globo, tornou-se um ingrediente imprescindível. Impossível pensar na comida asiática sem ela.

Continua após a publicidade

“ ‘Apimentar’ é o que fazemos para melhorar um relacionamento meio morno”

Metaforicamente, espalhou-se no imaginário cultural. Alguém pode ser “ardido feito pimenta”. Mas “apimentar” é o que fazemos para melhorar um relacionamento meio morno. Essa pluralidade de sentidos, que ora a faz boa, ora ruim, espelha, no idioma, um fato indiscutível: a pimenta é controversa.

A constatação faz minha mente dar um salto transatlântico e ir buscar, em versos cheios de contradições da poesia portuguesa, a explicação para o fascínio que ela causa mundo afora. Defino assim o que a pimenta faz: ela é um “fogo que arde sem se ver”, exatamente como o amor cantado por Camões.

Continua após a publicidade

A maioria das pessoas não aprecia sofrer as agruras do coração. Porém, mais cedo ou mais tarde, vai experimentar seus ardores — e percalços. A rima de amor com dor domina o cancioneiro popular porque, muitas vezes, essas emoções andam juntas. Com a pimenta se dá contraste semelhante. Assim como o sentimento cantado nos versos do poeta português, ela causa um “contentamento descontente”.

O que acontece em nosso corpo quando a consumimos ilustra isso. Os compostos da pimenta entram em ação assim que a provamos. Ainda na língua, uma substância chamada capsaicina gera uma espécie de alerta de perigo no cérebro, daí a sensação de calor e dor. Mas é também o composto que, com o tempo, faz o incômodo abrandar. “Tão contrário a si é o mesmo amor”, já dizia o soneto.

É certo que existem sempre apaixonados mais entregues do que outros. É o caso do agricultor americano que desenvolveu as variedades de pimenta mais fortes dos últimos anos, segundo o Guinness Book. Ed Currie contou em entrevistas que, ao experimentar crua a atual recordista, a Pepper X (que desbancou a Carolina Reaper, sua criação anterior), demorou seis horas para se recompor. Mas, no jantar, a comeu de novo. Gostar de pimenta é mesmo um “nunca contentar-se de contente”.

Continua após a publicidade

Publicado em VEJA de 12 de abril de 2024, edição nº 2888

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.