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Coluna da Lucilia

Por Lucilia Diniz
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Receita nacional

O nosso pão de queijo ganha atenção global

Por Lucília Diniz
14 jul 2022, 15h41

Você seria capaz de dizer qual prato representa o Brasil tanto quanto o samba e o futebol? Deu no Washington Post que é o pão de queijo. Sim, grafado com til e em manchete de capa de caderno.

O jornal The Washington Post é um dos mais antigos em circulação nos Estados Unidos. Pelo nome, você deve ter lembrado da história que sua corajosa cobertura revelou, a do escândalo de Watergate, que neste ano completa 50 anos. A história terminou na renúncia do recém-reeleito presidente Nixon e virou tema de inúmeros filmes. Só por estas credenciais qualquer um pode formar juízo de que, naquela redação, ninguém se dedica à frivolidades. Ou seja, o assunto é sério.

Na matéria em questão, não foi fácil para o jornalista americano explicar ao seu público do que se trata. A princípio, tentou contar a origem do pão de queijo a partir da França, relacionando-o a um parentesco distante com o gougère. A indução parece lógica. Afinal, o gougère é feito de uma levíssima massa choux, que se expande no forno com a cor do queijo ao qual foi misturada, podendo ser gruyère, comté ou emmentaler. Forçando a barra, o repórter foi até os éclairs. Mais impreciso, impossível. Afinal, o tesouro é nosso mesmo. E tem origem lá nas Minas Gerais do ciclo do ouro no século 18, quando a farinha de trigo disponível era de baixa qualidade, o que levou os pioneiros ao peculiar polvilho na receita. Sobras de queijo endurecido foram acrescentadas – e eis que o acaso determinou tudo.

Quando lembramos da matriarca mineira executando a receita, essas comparações afrancesadas parecem descabidas, um recurso de storytelling para fisgar incautos. Mas são as analogias, mesmo as mais fantasiosas, que ajudam um quitute regional a romper fronteiras e resistências, ao criar uma aura em torno do alimento incentivando seu consumo entre iniciados.

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Mas quando foi que o pão de queijo roubou o trono do panteão nacional gustativo da feijoada? Ou do brigadeiro? Ou da moqueca? Ou do arroz de carreteiro? Ou do churrasco? Ou do mungunzá? Aparentemente, o que ganhou mesmo os gringos foi uma coisa que o pão de queijo não tem. O tal do glúten. O segredo é que ele é feito de farinha de cassava, amido de yuca ou, como conhecemos bem, de tapioca. Ou seja, seu preparo leva nada de farinha de grãos, ao contrário de praticamente todos os produtos da panificação mundial.

Assim, o pão de queijo pode ser apreciado sem culpa ou temor pelas milhares de pessoas que hoje buscam alimentos sem a proteína do trigo. Dentre os que possuem a doença celíaca e pessoas que adotam dietas sem glúten em busca de uma vida mais leve e saudável, soma-se muita gente. Um mercado que, apenas nos Estados Unidos, movimenta mais de US$ 10 bilhões por ano.

A explicação lógica, portanto, é a economia. Ou o fato universal de que ninguém, seja onde for, resiste ao cheiro de uma fornada quentinha.

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