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Coluna da Lucilia

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Quem prova o molho?

Robôs até cozinham, mas não são chefs

Por Lucilia Diniz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 out 2026, 06h00 | Atualizado em 2 out 2026, 10h24
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Mesmo o melhor dos cozinheiros pode precisar de um auxiliar. Quem não se lembra da parceria entre Remy, o ratinho gourmet de Ratatouille, e o atrapalhado Linguini? O rapaz havia sido contratado para cuidar do lixo do restaurante e não entendia nada de cozinha. Escondido sob seu chapéu, Remy puxava seus cabelos para guiar seus movimentos e fazer dele um chef. A dupla me veio à memória depois de ver vídeos recentes de robôs preparando pratos. No lugar do ratinho, entram sistemas mecanizados e programas de inteligência artificial. Mas será que essas máquinas podem ser mestre-cucas?

Algumas estão em plena atividade. É o caso do Robby, equipamento criado para cozinhas profissionais, capaz de preparar refeições em grande quantidade. Ele parece uma mistura de wok com máquina de lavar. Basta colocar os ingredientes lavados e cortados em seu tambor. A partir daí, o recipiente gira, os temperos são pulverizados na medida certa, e a temperatura e o tempo são rigidamente controlados. No fim, ainda se lava sozinho — talvez o atributo que mais faça as pessoas sonharem com um Robby em casa.

Mas é nos restaurantes que essa automação faz mais sentido. Neles, tudo tem de ser porcionado, pesado e estar no lugar certo. Assim, o mesmo prato pode sair repetidas vezes sem grandes variações. O robô segue as medidas, não se distrai no horário de pico e não se cansa com tarefas repetitivas. É preciso um humano, porém, para criar e aprovar a receita.

Já na cozinha de casa, a situação costuma ser menos organizada. Alguém escolhe e prepara os alimentos para cozinhar. Sai na rua correndo para comprar algo que acabou, ou se vira para substituir o que falta. Faz ajustes se o tomate está muito maduro ou se a cebola soltou água demais. As quantidades variam: ora a família toda está à mesa, ora a refeição é para um ou dois.

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“Pense no prazer de comer algo feito por uma pessoa querida ou voltar a um restaurante que você gosta”

Há aparelhos domésticos que mexem a panela, regulam o fogo e acompanham o cozimento por câmeras. Mas o dono do robô precisa deixar tudo pronto para a ação. Por enquanto, ele é o ajudante.

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Contudo, avança-se rápido. Já existe até robô treinado para medir o sal de um prato. Acho fascinante. Só que qualquer pessoa que cozinhe sabe: às vezes, o molho tem a quantidade certa de sal e, mesmo assim, falta algo.

Esse algo a mais pode ser difícil de definir. Pense no prazer de comer algo feito por uma pessoa querida, ou de voltar a um restaurante porque o cozinheiro conhece o ponto exato que você gosta. Saber quem preparou a comida também muda a maneira como a recebemos.

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O ápice de Ratatouille trata disso. Ao comer o prato feito por Remy, o exigente crítico Anton Ego se lembra da comida de sua mãe. Não sabemos se ela seguia a melhor técnica, mas seus pratos tinham o gosto de uma infância feliz.

É certo que nem todo almoço precisa oferecer tal magia. Uma máquina capaz de preparar comida fresca pode trazer praticidade para famílias que, na correria diária, recorrem a ultraprocessados. Também pode, no futuro, dar mais autonomia a idosos e a pessoas com alguma limitação física.

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Se eu souber que, um dia, os robôs vão nos livrar da parte cansativa, abro espaço para um na minha cozinha. Só não deixaria de provar o molho. Ainda é preciso um paladar humano para decidir se ele está realmente bom.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

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