Tenho dedicado boa parte da vida a estudar alimentação, saúde e bem-estar e a dividir o que vou descobrindo. Faço isso em livros, palestras, conversas e também aqui. Mas, quando penso em tudo o que aprendi nesses anos, não é uma sala de aula que me vem à cabeça, mas uma mesa.
É impressionante quanto saber circula em torno dela. Um chef explica um preparo, uma cozinheira ensina um truque que aprendeu com a mãe, alguém conta por que determinado ingrediente nunca falta em sua casa. Quando viajo, adoro perguntar como se faz o que estou comendo. Não é raro voltar trazendo na mala uma receita, um tempero ou simplesmente uma ideia.
O conhecimento sobre a boa alimentação é um ciclo infinito. Pensei nisso ao ver que se aproximava o Dia do Nutricionista, comemorado em 31 de agosto. Celebro e acompanho a trajetória dessa profissão, que se dedica a nos ensinar a comer melhor. E o significado disso se transformou nas últimas décadas, ao longo das quais o assunto entrou em definitivo na minha vida.
Quem, como eu, precisou perder peso, ter intimidade com a ciência nutricional é crucial. Para mim, mudar a alimentação foi, em primeiro lugar, uma necessidade. Depois virou interesse, estudo e, por fim, trabalho.
Nessa trajetória, pude aprender, em um seminário na França com o químico Hervé This, que cortar o tomate e deixá-lo em contato com o ar ajuda a desenvolver seu sabor. Em Portugal, reencontro sempre a inteligência de uma cozinha que extrai muito de poucos ingredientes cotidianos. No Japão, o shabu-shabu me lembrou que uma refeição pode ser leve e cheia de sabor sem precisar de excessos.
“Comida tem a ver com saúde, claro, mas também com família, memória, prazer, cultura e rotina”
Mas não prescindi da educação formal. Há mais de vinte anos, fui fazer uma pós-graduação em nutrição num programa da Universidade de Cádiz, na Espanha. Eu já me interessava muito pelo assunto e queria saber mais.
Aliás, continuo querendo. Sempre aparece uma pesquisa nova, um alimento que eu não conhecia, uma técnica diferente, alguém com uma experiência que me faz rever uma certeza. Ainda bem.
Em outros tempos, orientar sobre alimentação saudável se resumia, principalmente, a organizar listas do que se podia ou não comer. A experiência mostrou que a vida é mais complicada — e mais gostosa — do que isso.
Comida tem a ver com saúde, claro, mas também com família, memória, prazer, cultura, dinheiro, rotina. Não adianta uma recomendação perfeita que ninguém consegue seguir.
Cora Coralina, que se dizia mais cozinheira que poeta, tem uma frase de que gosto muito: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Para o nutricionista, essa troca tem se tornado cada vez mais verdadeira, à medida que o acesso à informação cresce — também por mérito deles e do esforço de quem se dedica à boa alimentação em geral.
E é importante lembrar que nem tudo o que nos nutre se come. Os Titãs disseram isso de um jeito que a geração X sabe de cor: “A gente não quer só comida”. Queremos diversão e arte. E amigos, viagens, livros, música, boas conversas, curiosidade.
Cuidar da alimentação é cuidar da vida real de alguém, com seus hábitos, gostos e histórias. E isso exige conhecimento, mas também atenção e escuta. Aqui da minha mesa, continuo gostando de ensinar. Mas não quero nunca perder a fome de aprender.
Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009







