Os superalimentos, balanceados com os melhores nutrientes encontrados na natureza, oferecem a perspectiva de uma vida mais saudável e longeva? Não necessariamente. A resposta é ilustrada, infelizmente, pela morte prematura de um guru desse tipo de receita, o chef britânico de ascendência indiana Gurpareet Bains, que morreu aos 43 anos devido a complicações cardíacas.
Com muitos fãs em Hollywood, como a atriz Gwyneth Paltrow, Bains se considerava um nutricionista que havia revolucionado a gastronomia, com trajetória registrada em livros que se tornaram best sellers. É dele o autoproclamado “prato mais saudável do mundo”, uma galinha preparada ao molho curry, com mirtilos, gojiberry e outros ingredientes ricos em antioxidantes. A receita pouco lhe valeu. Da mesma maneira que o cardiologista Robert Atkins – inventor da dieta que condenava o consumo de carboidratos e que também morreu precocemente do coração – Bains foi uma vítima do nutricionismo.
A definição de nutricionismo que consta dos dicionários é neutra. Trata-se do estudo das necessidades alimentares dos seres humanos e animais, e dos problemas relativos à nutrição. É uma área relativamente recente. No Brasil, data da primeira metade do século passado, e tem uma ficha de bons serviços prestados. Intuitivamente, porém, de tanto ver mocinhos e vilões da alimentação trocarem de papel ao sabor de alguma pesquisa sensacionalista, eu sempre desconfiei do nutricionismo. O problema é que, em vez de escutar nosso corpo, prestamos mais atenção a um amontoado de regras que, com alguma frequência, são contraditórias e mutuamente excludentes.
Não me surpreendi, portanto, ao ver o nutricionismo na berlinda, com o lançamento, por aqui, de um livro escrito há alguns anos pelo pesquisador australiano Gyorgy Scrinis, “Nutricionismo: a ciência e a política do aconselhamento nutricional”. Para o professor da Universidade de Melbourne, nutricionismo seria mais bem descrito como uma fusão das palavras “nutrição” e “reducionismo”. Ele se refere à obsessão pelos nutrientes que minimiza o papel de nossa intuição no ritual alimentar. Um dos problemas do nutricionismo é ter produzido pessoas que Scrinis chama de nutricêntricas.
Não se trata, claro, de negar a ciência. Ao contrário, a melhor ciência não dispensa beber nas fontes de culturas tradicionais, que valorizam as informações passadas de geração a geração. Se algum costume faz bem a um conjunto de pessoas há muito tempo, é porque há de haver nele algo de bom que, eventualmente, pode ser replicado para além do ambiente de origem. Quantos remédios e condimentos não surgiram por meio desse processo?
A comida deve fazer bem à saúde, mas não podemos esquecer que é fonte de energia, e não remédio. E deve fazer bem também à alma, na medida em que é cultura, uma manifestação que precisa ser valorizada com os devidos rituais civilizatórios, e não por meio da contabilização mecânica de nutrientes. Ninguém precisa devorar compêndios para saber o que lhe faz bem ou mal. Basta aguçar a sensibilidade, seguir o bom senso e estimular o autoconhecimento.
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