Diz-se por aí que o hábito da leitura está perdido. Acho uma pena e até um desperdício, uma vez que, hoje, o livro pode estar em toda parte: no celular, no tablet, no áudio que acompanha uma caminhada. No entanto, quem já (ou ainda) ama ler costuma ter uma paixão peculiar: frequentar livrarias. Por isso, faz sentido pensar no 23 de abril, Dia Mundial do Livro, como o dia delas.
Visitar uma livraria, é certo, exige mais do que apertar um botão. Mas, quando nos dispomos a ir ao encontro dos livros em seu “habitat natural”, nos abrimos à descoberta. Ao cruzar a porta, não sabemos exatamente o que vamos encontrar. Das mesas e prateleiras, os livros nos cortejam. Longe das urgências e dos algoritmos, nos deixamos seduzir.
Sempre gostei de livrarias e, quando viajo, entre os museus, restaurantes e outros passeios, reservo para elas quase um roteiro paralelo. Por exemplo, em Londres, não pode faltar a tradicional Charing Cross Road, um dos mais famosos endereços de livros do mundo. Indo até Notting Hill, a parada é na pequena Books for Cooks, com prateleiras inteiramente dedicadas à culinária, tão sedutoras quanto as de uma delicatessen.
Aliás, o atrativo dos livros de receitas talvez nos dê uma pista sobre o momento atual. Afinal, nunca foi tão fácil acessar informação, inclusive sobre comida, com milhares de preparos disponíveis em vídeo, dicas para não errar aquele prato complicado ou para fazer substituições de ingredientes. E nem por isso os livros de gastronomia desapareceram. Eles não só resistem como saíram dos domínios da cozinha. Hoje, são como uma promessa de algo especial. Não raro, são comprados mais pelo prazer que há em folhear e antecipar o preparo de uma refeição diferente do que pela simples necessidade de se alimentar.
Acredito que a relação entre o público e os livros venha se renovando. Isso já foi compreendido pelo mercado, de modo que, mundo afora, surgem espaços com propostas muito específicas. Em Tóquio, por exemplo, há uma livraria que vende apenas um título por vez. Outras funcionam em espaços inusitados, como a Boekhandel Dominicanen, em uma catedral gótica em Maastricht, ou a Ateneo Splendid, em um antigo teatro em Buenos Aires. Um barco hospeda a Word on the Water, em um canal de Londres, enquanto à beira de outro, em Veneza, na Alta Acqua, os livros são expostos em gôndolas. Assim, ficam a salvo caso os corredores sejam tomados pela maré cheia que, de tempos em tempos, domina a cidade italiana.
Esses são espaços que, mais do que apostar na quantidade de títulos, valorizam a experiência da visita. A mudança de perspectiva me fez lembrar do filme “Mensagem para Você”, no qual uma grande rede de livrarias ameaça a sobrevivência de uma pequena loja de bairro. Se as megalivrarias, vilãs do filme, eram na época um verdadeiro Golias, o gigante atual é ainda maior: o comércio digital. Enquanto isso, os pequenos livreiros, como Davi, reagem com o estilingue da curadoria especializada.
As livrarias, assim, respondem a um anseio contemporâneo e se tornam, de novo, lugares de encontro, não apenas entre leitores ou destes com os autores, mas com a matéria do livro. Que possamos, por muito tempo ainda, continuar indo ao lugar onde os livros moram e onde, em silêncio, aguardam nossa visita.





