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Saiba por que, mesmo abandonados, cães esperam os donos

Segundo estudos, os cães veem as famílias humanas como seu próprio grupo, onde encontram segurança, abrigo e alimentação

Por Rita Loiola - 7 Oct 2016, 19h45

Um cão abandonado pelos donos aguarda há cerca de 15 dias pelo retorno da família que o deixou e se mudou para outro bairro em Macapá, no Amapá. O cachorro, uma mistura da raça golden retriever com vira-lata, foi visto vagando pela rua e observando a porta da antiga casa, que ostenta uma placa de “aluga-se”. Segundo a ONG Anjos Protetores, que resgatou o animal, ele está fraco e debilitado. Extremamente sociáveis, mostrando sinais de empatia e capazes de distinguir palavras e entonações como nós, os cães costumam sofrer com a separação dos donos – às vezes colocando a vida em risco.

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“Muitos cães – talvez metade dos que vivem no Ocidente – que moram em lares urbanos têm um grande problema ao serem deixados sozinhos em algum momento de suas vidas”, explica o biólogo britânico John Bradshaw em seu livro Cão Senso, que investiga o comportamento do animal. “E esse problema pode durar semanas ou meses. Eles precisam da companhia das pessoas. “

Evolução ao lado dos humanos

Isso acontece porque, após serem domesticados, cerca de 11.000 anos atrás, a evolução dos cães aconteceu ao lado do homem. Inicialmente, esses animais que viviam em matilhas chegaram aos acampamentos atrás de restos de comida e foram sendo moldados por nós. Aqueles que exibiam características mais úteis ao convívio humano – capacidade de caçar, pastorear rebanhos, defender territórios, fazer companhia – foram acolhidos e passaram sua herança genética adiante. Ao longo do tempo, a aproximação entre os homens e os animais chegou a tal ponto que eles passaram a nos identificar como integrantes das antigas matilhas – ou seja, de seu próprio grupo.

“As pesquisas mais recentes falam em uma ‘convergência evolutiva’, o que significa que o animal não seria o que é, hoje, sem nós. Ele encara a família humana como o seu grupo, no qual encontra segurança, abrigo e alimento. Por isso, ficar distante desse ambiente causa muito sofrimento para os cães”, explica a especialista em comportamento animal Carolina Rocha, do Pet Anjo, um site de serviços para animais de estimação em São Paulo.

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Além da falta da companhia, os cachorros são também muito ligados à rotina. Sua existência se dá em torno das horas certas para dormir, comer, passear, brincar ou aguardar o dono chegar do trabalho. Quando esses hábitos são alterados, o animal costuma ter dificuldades para se adaptar. “Quando a família, que é responsável por manter a rotina do cão, fica distante, ele nota que há algo errado e pode ficar triste, ansioso e até parar de se alimentar”, diz Carolina.

Como a percepção de tempo dos cães é diferente da humana – está mais ligada aos ciclos de luminosidade que a períodos como dias ou anos – , ele pode passar muito tempo aguardando os donos sem saber se a espera foi de horas, semanas ou meses. Assim, quando o animal é abandonado e deixa de comer, ele pode ficar abatido e fraco, como ocorreu com o cão de Macapá.

“O vínculo entre homens e cães é muito antigo e forte. Por isso conhecemos episódios de cachorros que esperam o dono mesmo depois que ele já morreu ou aguarda que a família que se mudou retorne. A quebra desse vínculo costuma ser difícil para os animais”, diz Carolina. “Há dados científicos que revelam que essa ligação se dá também por meio do afeto, com a medição em cães dos níveis de oxitocina, conhecido como o ‘hormônio do amor’. Não é possível dizer que ele sente a intenção do abandono, mas certamente a ruptura lhe causa bastante sofrimento.”

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