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Revelações maias

Arqueólogos descobrem construções soterradas que sugerem algo espetacular: o império pré-colombiano pode ter sido tão avançado quanto a Grécia antiga

A trajetória do império maia, que dominou boa parte da América Central por mais de 3 000 anos, de 2000 a.C. a meados do século XVII, é repleta de mistérios. Uma descoberta publicada na revista científica americana Science no último dia 28 trouxe uma série de revelações. Por meio do uso da mesma tecnologia que serve de base para guiar veículos autônomos, como os carros dirigidos por inteligência artificial (veja o quadro abaixo), a iniciativa denominada Patrimônio Cultural e Natural Maia (Pacunam) — composta de dezoito pesquisadores de instituições guatemaltecas, europeias e americanas — encontrou vestígios de uma metrópole dessa civilização. Ela teria mais de 60 000 edifícios, soterrados com o tempo na densa floresta tropical que toma conta do norte da Guatemala, na região de Petén. A análise desse novo conglomerado sugere que a sociedade maia pode ter sido ainda mais complexa do que se imaginava.

A dimensão da cidade encontrada revela que sua população devia ser maior do que se esperava no ápice do império, por volta do ano 1200, quando se estendia do sul do atual México até Belize, tomando toda a Guatemala. Recalculou-se o número de cidadãos maias. Em vez de 4 milhões, agora eles são estimados em 11 milhões — quantidade semelhante à de habitantes da cidade de São Paulo. A estrutura dos centros urbanos também era mais elaborada do que se pensava. Além de erguerem as pirâmides já descobertas e amplas praças de convivência, os maias construíram, por exemplo, estradas e instalações militares de grande porte, possivelmente com o objetivo de se proteger de conflitos internos e de ataques promovidos por tribos indígenas. A infraestrutura ainda mostra que provavelmente havia uma ordem sob o comando de um Estado forte. Os antropólogos agora supõem algo espetacular: o império maia talvez tenha sido tão avançado, em progresso tecnológico, científico e civilizatório, quanto a Grécia antiga (1100 a.C.-146 a.C.) ou a China feudal (1122 a.C.-256 a.C.).

Antes se deduzia que os maias sobreviviam à base da chamada agricultura rotativa, um método quase nômade que consistia em usufruir ao máximo uma plantação, até que se esgotassem por completo os recursos naturais. O mapeamento em 3D da nova área revelada mostra, contudo, que a cultura pré-colombiana se sustentava com a agricultura intensiva, com técnicas de irrigação e modificação geológica. Detectou-se que, em alguns povoamentos, até 95% das terras ocupadas eram cultivadas dessa forma.

Por fim, a descoberta deu força a uma das hipóteses sobre o que teria levado o império maia à ruína. Até há pouco tempo, a tese mais aceita era a da destruição nas mãos dos colonizadores espanhóis. No entanto, o estudo inicial da nova cidade descoberta, que ainda deve ser escavada por arqueó­logos, sugere outra hipótese. É muito provável que a civilização já estivesse em colapso quando os europeus desembarcaram na América. Os maias possivelmente sofreram escassez de recursos naturais por ter abusado da manipulação do solo de fazendas e deteriorado lagos dos quais dependiam. Essa postura afeita à depredação, somada a mudanças climáticas que acometeram a região e acarretaram um longo período de estiagem — conforme destacado em outra pesquisa publicada recentemente, em agosto, na mesma revista Science, por cientistas das universidades de Cambridge e da Flórida —, levou ao início do fim da sociedade maia. A chegada dos espanhóis, no começo do século XVI, teria sido, portanto, apenas a gota que faltava para transbordar o balde.

Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603