Mosquitos podem associar cheiro do repelente à comida, segundo nova pesquisa
Estudo recriou em partes o famoso experimento de Pavlov com cachorros para comprovar que os mosquitos podem associar o repelente DEET à comida
Espalhados pelo mundo, os insetos são criaturas essenciais para o bem-estar ecológico do planeta. Ainda assim, mosquitos como o Aedes aegypti podem espalhar doenças graves (como dengue e chikungunya) e, em sua maioria, outros insetos similares são indesejados dentro dos lares da humanidade. Para isso, a ciência desenvolveu os repelentes e, em sua mais alta hierarquia, estão os repelentes DEET — que recebem esse nome pelo seu composto químico principal — que mexem com os receptores dos insetos e os impedem de identificar seu alimento nos corpos humanos.
Em uma pesquisa recente da revista Journal of Experimental Biology, pesquisadores europeus utilizaram uma técnica de condicionamento, criada pelo fisiologista Ivan Pavlov, para treinar mosquitos Aedes aegypti e verificar se os animais conseguem trocar a repressão causada pelo repelente por uma atração.
No fim do século 19, o cientista Ivan Pavlov testava a resposta de salivação dos cachorros ao encontrarem suas comidas. Com o passar do tempo, o fisiologista notou que os animais já começavam a salivar assim que ouviam o som de seu assistente se aproximando, antes dele alimentá-los. A partir disso, Pavlov montou um novo experimento para testar se ele poderia fazer com que os animais salivassem sem a comida, mas apenas ao ouvirem o barulho de um sino, através de um trabalho de associação e condicionamento. Sua pesquisa foi uma das bases primordiais para o desenvolvimento da psicologia comportamental.
Segundo Claudio Lazzari, autor principal do estudo da Universidade de Tours, na França, “se os mosquitos forem expostos repetidamente ao DEET, ele se torna menos efetivo como um repelente”. Em certas situações, o cientista reitera que eles podem até começar a atrair os insetos. A equipe repensou o experimento de Pavlov para poder utilizá-lo no caso dos mosquitos.
Métodos de condicionamento
De início, eles restringiram uma série de espécimes do Aedes aegypti atrás de uma tela, e ofereceram uma bolsa de sangue posta perto o suficiente para que eles a identifiquem, mas longe o bastante para que não consigam atingi-la. Assim, eles poderiam verificar o quanto os insetos tentariam ultrapassar a tela e picar a bolsa atrás de um pouco de sangue. Com sucesso, eles identificaram que os mosquitos tinham vontade de sobra para alcançar seu alimento. Mas, ao apresentá-los uma bolsa que cheirava ao DEET, eles ficaram longe.
Para identificar se poderiam mudar essa resposta, os cientistas começaram a alimentar os mosquitos com bolsas de sangue por 20 segundos e, nos 10 segundos finais, espirravam repelente DEET na bolsa, de forma a criar, lentamente, a associação nos insetos de que o repelente pode significar alimento.
A equipe realizou a alimentação três vezes até finalmente entregarem aos animais logo de início uma bolsa de sangue infestada de DEET. Diferente da primeira situação, após o rápido condicionamento, mais de 60% dos insetos voaram em direção à bolsa para se alimentarem. Como forma de testar os novos mosquitos condicionados, os cientistas ofereceram a eles as duas mãos de uma das autoras da pesquisa — Ayelén Nally, da Universidade de Buenos Aires — uma banhada em repelente, e uma sem. De forma surpreendente, a maioria dos insetos escolheu a mão cheia de repelente.
De acordo com Lazzari, “se um mosquito picar alguém que aplicou um repelente DEET com concentração baixa para repeli-lo, mas grande para ele sentir, o inseto estará mais suscetível a picar outras pessoas que cheirem à DEET”. Ainda assim, o autor deixa claro que o repelente é o mais efetivo disponível, e que ele protege seus usuários de doenças carregadas pelos insetos. “Ele salva vidas”, explica.





