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Memórias de abuso sexual: é possível criá-las?

A falsa recordação de violência é um tema vastamente discutido por neurologistas, psicólogos e juristas. Ao site de VEJA, especialistas explicam a mecânica da memória e mostram como, para nós, lembranças verdadeiras ou mentirosas têm o mesmo impacto

Por Rita Loiola Atualizado em 9 Maio 2016, 14h47 - Publicado em 16 fev 2014, 16h29

“Quando tinha 7 anos, Woody Allen me pegou pela mão e me levou a um pequeno espaço mal iluminado do segundo andar de nossa casa. Ele disse para que eu deitasse com a barriga para baixo e brincasse com um trem elétrico do meu irmão. Então ele me agrediu sexualmente”, afirma Dylan Farrow, filha adotiva do diretor e da atriz Mia Farrow, em um texto publicado no início de fevereiro no site do jornal The New York Times. Foi uma das primeiras vezes em que Dylan, hoje aos 28 anos, falou publicamente sobre o episódio ocorrido em 1992. Na época, a acusação foi investigada pela polícia com a ajuda de especialistas do Hospital Yale-New Haven, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, que não comprovaram o abuso. No último dia 7, no mesmo jornal, Woody Allen negou o crime e acusou Mia de manipular as lembranças da filha.

Mais de duas décadas depois, o caso ainda divide a opinião pública. Seria possível que as memórias de Dylan fossem falsas? O tema é largamente discutido na psicologia jurídica. Desde os anos 1980, juristas e psicólogos perceberam que um dos recursos usados em litígios conjugais é a implantação de memórias falsas de abuso sexual nos filhos. No Brasil, estimativas de psicólogos ligados a varas de família indicam que até metade dessas acusações feitas durante divórcios conflituosos não são verdadeiras.

“Isso acontece quando um dos cônjuges tenta denegrir a imagem do outro. Trata-se do ataque mais perverso que pode ocorrer”, afirma o psicólogo Jorge Trindade, presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica. “Para quem acredita ter sofrido uma violência, verdadeira ou não, o impacto emocional é o mesmo: terrível.”

Mecânica da recordação – Desde o início do século XX, estudos como o do psicólogo francês Alfred Binet, considerado pioneiro em testes de inteligência, indicam que a memória é formada por distorções. Nos últimos trinta anos, pesquisas comprovaram que grande parte das nossas lembranças é forjada. Recordações, reais e falsas, e esquecimentos são os elementos que, combinados, formam a memória. Esse é o funcionamento padrão das lembranças, em um cérebro normal. Ele faz de nossas recordações algo flexível e maleável para que o ser humano aprenda coisas novas, raciocine, tenha criatividade para enfrentar as situações do presente e inteligência para compreender o passado. Combinamos eventos, fatos, sons, imagens, nossos ou alheios, o que nos possibilita viver o dia a dia. É o que acontece quando preenchemos mentalmente uma frase com palavras que nosso interlocutor deixou de dizer. No futuro, provavelmente, a lembrança será da sentença inteira, uma falsa recordação que auxilia a conectar episódios vividos. Tempo e influências externas tingem a memória, tornando-as adequadas ao momento vivido.

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Os estados emocional e físico também são essenciais na formação de lembranças. Estar ansioso, triste, alegre ou apressado pode manipular mesmo dados objetivos. “Quando falamos de falsas memórias, parece que elas são feitas de propósito. Mas elas fazem parte processo de recordar. Ser incorreta não quer dizer que não seja verdadeira”, afirma Cammarota.

Como um processo composto de vários elementos, as lembranças não existem isoladamente. Dados do passado se misturam no momento em que uma memória está sendo formada. Essas lembranças são aquelas que ajudam a compreender o presente e projetar o futuro. No hipocampo, área do cérebro responsável pela memória, as reminiscências são reconstruídas, editadas e renovadas. E, a cada vez que evocadas, elas se modificam – novos elementos são perdidos ou incorporados.

“Recordações dependem do que esperamos delas. Ao contrário de uma foto ou de um documento com começo e fim, trata-se de sistemas dinâmicos, com um conteúdo que se modifica ao longo do tempo”, diz o neurocientista. “Memórias não são estáticas no tempo nem no cérebro.” Assim, longe de parecer um computador repleto de arquivos que poderiam ser acessados e abertos a qualquer momento, a memória é mais semelhante a um baralho. Ao escolhermos um naipe, várias outras cartas saem ao mesmo tempo. Em diversos estudos detalhando imagens de observações por ressonância feitos nos últimos anos, cientistas perceberam que lembranças vívidas produzem ampla ativação no cérebro, envolvendo áreas sensoriais, emocionais e executivas.

Em um artigo publicado em 2013 na revista The New York Review of Books, o neurologista britânico Oliver Sacks, professor da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, elencou uma série de pesquisas que comprovam o quanto os seres humanos precisam desconfiar de suas memórias. Entre elas, as de violência sexual. “Não existe um modo pelo qual os acontecimentos do mundo possam ser transmitidos ou gravados diretamente em nossa mente; eles são experimentados e construídos de modo altamente subjetivo, que é diferente em cada indivíduo e reinterpretado ou revivido diferentemente a cada vez que são recordados”, diz Sacks. “Com frequência nossa única verdade é a verdade narrativa, as histórias que contamos uns aos outros e a nós mesmos – histórias que reclassificamos e refinamos sem cessar.”

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