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Linguagem dos macacos tem ritmo semelhante ao da fala humana

Estudo mostra que a percepção dos macacos rhesus está sintonizada a uma frequência natural de comunicação, de modo parecido ao que acontece com os seres humanos

Na fala humana o ritmo é fundamental. Em todas as línguas estudadas até agora, a fala segue uma frequência que vai de três a oito hertz, ou seja, são pronunciadas de três a oito sílabas por segundo. Quando alguma coisa perturba o ritmo da fala, aumentando ou diminuindo sua frequência, a capacidade dos outros humanos entenderem o que está sendo dito diminui. Segundo os cientistas, isso significa que a percepção humana está, de algum modo, “sintonizada” a essa frequência. Uma nova pesquisa publicada nesta segunda-feira na revista PNAS mostra que a linguagem de outros primatas, que se comunicam por meio de expressões faciais, está baseada no mesmo ritmo, sugerindo que a fala humana teria origem nesse tipo ancestral de comunicação.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Monkeys are perceptually tuned to facial expressions that exhibit a theta-like speech rhythm

Onde foi divulgada: revista PNAS

Quem fez: Asif A. Ghazanfar, Ryan J. Morrill, and Christoph Kayser

Instituição: Universidade de Princeton, nos Estados Unidos

Dados de amostragem: 11 macacos rhesus

Resultado: Os animais foram colocados em frente a uma tela que mostrava duas imagens de macacos. Uma delas estalava os lábios no ritmo natural. A outra em um ritmo mais rápido ou mais devagar. Os macacos passaram mais tempo concentrados nas imagens que se moviam na frequência natural, mostrando que eles estão sensorialmente sintonizados a esse ritmo.

Essas expressões faciais são muito comuns na comunicação dos outros primatas. O estalar dos lábios, por exemplo, é observado em muitos deles, como os chimpanzés e os rhesus. Ele é caracterizado pelo movimento vertical da mandíbula, envolvendo a separação dos lábios. O resultado é mais visual do que auditivo, mas produz um som muito baixo que soa como a consoante P, pronunciada sem nenhuma vogal.

O estalar dos lábios dos primatas têm diversos paralelos motores com a fala humana, possuindo semelhanças em seu ritmo, movimentos e coordenação vocal. Além disso, um estudo anterior conduzido por pesquisadores da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, havia demonstrado que o ritmo do estalar de lábios dos macacos é parecido com o da fala humana, também variando entre três e oito hertz. O que permanecia desconhecido até agora é se os macacos também possuíam algum tipo de sintonia sensorial a esse ritmo, o que poderia sugerir que os dois tipos de comunicação possuíam uma origem comum.

Ritmo natural – A mesma equipe de cientistas da Universidade de Princeton colocou onze macacos rhesus em frente a uma tela, onde eram mostradas imagens de dois membros da espécie estalando os lábios em ritmos diferentes. A intenção era ver em qual das duas imagens os macacos se concentravam por mais tempo, demonstrando perceber alguma tentativa de comunicação.

Em todos os testes, um dos macacos na tela realizava o movimento a seis hertz, considerado o ritmo natural da espécie. A outra imagem podia mostrar um macaco estalando os lábios em uma frequência menor, de três hertz, ou maior, de dez. Como era impossível obrigar um macaco a realizar os movimentos em ritmos diferentes dos naturais, todas as imagens tiveram de ser geradas por computador.

Como resultado, os rhesus permaneceram 30% mais tempo olhando para as imagens que estalavam os lábios em uma cadência de seis hertz, demonstrando uma preferência pelos ritmos naturais. Além disso, cerca de metade dos macacos responderam a essas imagens com movimentos próprios. Essa proporção é similar à quantidade de macacos que respondem ao gesto na natureza, provando que eles estavam, de fato, percebendo uma intenção de comunicação.

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Segundo os pesquisadores, os dados mostram que os macacos estão sensorialmente sintonizados a um ritmo próprio de estalar dos lábios, de modo semelhante ao que acontece com a fala humana. Essa conclusão dá suporte a uma teoria que sugere que a fala surgiu, por meio da evolução, dos movimentos faciais de primatas ancestrais ao homem. Se isso for verdade, o ato de estalar os lábios seria mais importante para o desenvolvimento da linguagem humana do que a própria vocalização, capacidade que alguns macacos também possuem de soltar sons por meio de suas cordas vocais.