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Investigação de DNA comprova tese histórica de explorador norueguês

Estudo genético confirma a possibilidade de que os povos indígenas da América habitaram as ilhas da Polinésia antes da colonização europeia

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 19 jul 2020, 13h31 - Publicado em 17 jul 2020, 06h00

Em abril de 1947, seis exploradores nórdicos e um papagaio verde, responsável por divertir a tripulação, singraram cerca de 7 000 quilômetros ao longo do Oceano Pacífico em uma precária jangada de madeira. Tinham uma obsessiva ideia na cabeça: provar que povos indígenas da América pré-colombiana teriam habitado as remotas ilhas da Polinésia séculos antes da colonização europeia. Liderada pelo norueguês Thor Heyerdahl (1914-2002), a Expedição Kon-­Tiki, batizada em homenagem a um deus venerado por incas e polinésios, partiu de Callao, no Peru, e cumpriu sua missão 101 dias depois ao ancorar em Raroia, no atual Taiti. Era a comprovação de que a travessia, apenas seguindo os ventos e correntes, não demandaria grandes recursos. A aventura foi narrada em livro, best-seller traduzido para mais de sessenta idiomas, e em filmagens que renderam a Heyerdahl o Oscar de melhor documentário em 1951.

Heyerdahl baseava sua tese em aspectos como as semelhanças entre os gigantes monólitos erguidos por extintas civilizações da América do Sul e aqueles encravados na Ilha de Páscoa (Rapa Nui, na língua local). Outra plausível evidência era a farta presença nas ilhas do Pacífico de batata-doce, uma raiz nativa das Américas, inclusive com nomes bem parecidos — kuumala, em polinésio, e kumara ou cumal, em quéchua, o idioma das comunidades indígenas dos Andes. Nenhuma das pistas, no entanto, foi amplamente aceita pela comunidade científica, que trata os asiáticos como os ancestrais oficiais dos polinésios. O antropólogo americano Robert Carl Suggs, hoje com 88 anos, comparou a teoria da Kon-Tiki a famosos contos de “leitura leve e emocionante, mas com métodos científicos muito pobres”. Outros colegas chegaram a tachar o norueguês de louco e descuidado, ao ter ignorado a avançada tecnologia marítima dos povos da Oceania, trocando-a por uma surrada embarcação. Uma nova pesquisa, porém, retoma as ideias de Heyerdahl, as torna críveis, e lhe dá razão — ainda que parcial. É a beleza do passar do tempo a favor da ciência.

Um estudo publicado na semana passada pela revista científica britânica Nature foi taxativo: indígenas da América do Sul e polinésios se encontraram há cerca de 800 anos, alguns séculos antes de os europeus desembarcarem nas duas regiões, na mesma época em que Genghis Khan invadia a China e Constantinopla era saqueada. Os pesquisadores coletaram dados do DNA de 807 indígenas de quinze tribos das Américas do Sul e Central e de dezessete ilhas do Pacífico. Verificou-se enorme coincidência entre os códigos genéticos de povos da Colômbia e do Equador e das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. O trabalho, liderado por Alexander Ioannidis, pesquisador de pós-doutorado da Universidade Stanford, provocou ondas de entusiasmo, mesmo que não seja o ponto-final de uma hipótese que ainda pede investigação. Os próprios autores do estudo acreditam que os polinésios tenham viajado até a América e depois retornado, mas não excluem a rota inversa. De uma forma ou de outra, o fato é que a travessia foi realizada. Thor Heyerdahl Junior, 82 anos, primogênito do pioneiro explorador, consultor do Museu Kon-Tiki, uma das principais atrações turísticas de Oslo, se diz orgulhoso e aliviado. “Estou muito satisfeito de saber que as teorias de meu pai estão ganhando apoio em novos estudos de DNA. Ele nunca foi um aventureiro ou um louco, mas um cientista muito sério e trabalhador”, disse ele.

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O detalhamento genético, ferramenta primordial da ciência, é instrumento que tem permitido a redenção de teses que pareciam abiloladas e foram lindamente confirmadas. Trata-se de um processo em curso que ainda pode gerar novas descobertas. “Houve uma evolução incrível em pesquisas de DNA nos últimos dez anos, mas ainda há uma série de mistérios sobre como se deram os povoamentos”, diz Tábita Hunemeier, cientista do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Ela ressalta o interesse crescente em torno de investigações semelhantes na Amazônia, com mais de 200 línguas ainda faladas — e eventual pororoca de distintas civilizações. Mesmo com todos os avanços, ainda hoje a humanidade desconhece detalhes de sua trajetória. Mas, graças à ciência, nunca é tarde para desvendá-los.

Publicado em VEJA de 22 de julho de 2020, edição nº 2696

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