Carta ao Leitor: O respeito ao dom
O fascínio da inteligência — por que uns vão tão longe e outros não? — é alimento da humanidade desde sempre e tema frequente na história de VEJA
Ao longo da história, a maneira de enxergar as pessoas superdotadas, especialmente na infância e na adolescência, mudou profundamente — entender a evolução do olhar da sociedade é uma lição de tolerância de mãos dadas com as percepções científicas. Na Antiguidade, capacidades intelectuais muito acima da média podiam despertar admiração, mas também estranhamento e estigma. Sem uma explicação precisa para esses talentos, o indivíduo excepcional podia ser visto como alguém tocado pelos deuses ou marcado por uma natureza incomum. Séculos depois, essa ideia começou a dar lugar à figura do gênio. Mozart tornou-se um dos exemplos mais célebres: ainda menino, demonstrava uma capacidade musical extraordinária, compondo e se apresentando diante das cortes europeias. Seu talento precoce ajudou a consolidar no imaginário ocidental a associação entre superdotação e genialidade quase inexplicável. Com o avanço da psicologia, sobretudo a partir do século XIX, essas habilidades passaram a ser estudadas de maneira mais sistemática. No século XX, os testes de inteligência reforçaram por algum tempo a ideia de que a superdotação poderia ser medida principalmente pelo QI. Hoje, porém, entende-se que as altas habilidades podem se manifestar de diferentes formas e não significam necessariamente sucesso escolar ou ausência de dificuldades. Do prodígio quase sobrenatural representado por Mozart chegou-se, assim, a uma visão muito mais ampla e humana da superdotação.
Uma reportagem desta edição de VEJA, assinada pelas repórteres Paula Freitas e Sara Salbert, ilumina o tema com minúcia — e mostra como as olimpíadas de áreas como matemática, física e biologia, entre outras, que estão se popularizando nas escolas brasileiras, ajudam a trazer para o ponto de equilíbrio a imagem dessas pessoas extraordinárias. É crucial tratá-las com carinho, mas também sem paternalismo. É fundamental identificá-las e saber como levá-las à vida adulta, até porque, do ponto de vista econômico, como revelam trabalhos conduzidos por economistas das universidades Stanford e Munique, aumentar em 10 pontos percentuais a proporção de estudantes de alto desempenho cognitivo pode acelerar 1,3 ponto percentual o crescimento anual do PIB per capita.
O fascínio da inteligência — por que uns vão tão longe e outros não? — é alimento da humanidade desde sempre, e não por acaso VEJA tem o constante cuidado de oferecer sucessivas capas de modo a vasculhar os segredos de nomes como Einstein e Bill Gates, que logo cedo se mostraram rápidos e hábeis, o que nunca os fez super-homens, com os defeitos humanos, demasiadamente humanos. Trata-se de respeitar o dom, como se devem respeitar as diferenças da humanidade.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011







