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Aquecimento global altera a cor dos girassóis

Estudo descobre que mudanças climáticas podem alterar a coloração das flores, o que põe em risco a própria sobrevivência da espécie

Por Amauri Segalla Atualizado em 23 out 2020, 11h04 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

Entre as diversas razões que fizeram com que a série de quadros Os Girassóis, do holandês Vincent van Gogh, se tornasse uma das referências da arte ocidental está o amarelo cintilante das flores que, de alguma maneira, magnetiza o observador. Criadas no fim do século XIX, as obras provavelmente seriam diferentes se fossem concebidas em um futuro não muito distante. E por uma simples razão: os girassóis podem estar mudando de cor. Não é novidade que as alterações climáticas exercem influência significativa no planeta. O que se desconhecia é o impacto que elas causam em uma das espécies mais notáveis da Terra — as flores. Segundo estudo realizado por botânicos das universidades de Pittsburg, Virgínia e Clemson, todas nos Estados Unidos, nos últimos 75 anos as plantas alteraram a sua pigmentação por causa do aumento da temperatura e das variações na camada de ozônio. Elas fizeram isso para se proteger dos raios solares, exatamente como os humanos agem ao usar filtro. Nesse processo tão longo quanto silencioso, as cores mudam — e talvez jamais voltem a ser como antes.

  • O estudo analisou 1 238 flores de 42 espécies coletadas entre 1941 e 2017 na América do Norte, Europa e Austrália. Suspeitava-se que as plantas estivessem de alguma maneira se adaptando à nova realidade climática, mas os cientistas não esperavam uma alteração tão intensa. Segundo a pesquisa, as flores aumentaram, em média, 2% ao ano a quantidade de pigmentos ultravioleta que carregam consigo. Parece um detalhe, mas as transformações podem ter efeitos significativos — como pétalas de cores diferentes. “Isso também tem implicações para a reprodução das plantas, tanto de flores silvestres nativas quanto de espécies de culturas domesticadas que têm padrões florais para o ultravioleta, como os girassóis”, disse Matthew Koski, um dos autores do estudo. Koski lembra que os pigmentos são responsáveis pela atração de polinizadores. Ou seja: se o aumento da temperatura continuar no ritmo atual, porá em risco diversas espécies vegetais.

    As mudanças climáticas são uma realidade perceptível. Nos Estados Unidos, o excesso de chuva inutilizou 19 milhões de acres para o plantio. Na África Meridional, 30 milhões de pessoas precisaram de socorro alimentar de organizações internacionais por causa da quebra nas colheitas. Na Ásia, estima-se que a produção de arroz cairá 20% a cada grau aumentado, enquanto na Europa as safras de milho e beterraba podem despencar pela metade até 2050.

    O cenário é preocupante, mas há boas iniciativas em curso. Nos últimos anos, a corrida pelo desenvolvimento de produtos mais adequados à nova realidade do stress climático tem movimentado bilhões de dólares em investimentos. Entre as ações previstas estão soluções para a saúde do solo, independentemente do regime de chuvas, e o controle de pragas que possam representar novas ameaças. É incerto se a ciência será capaz de reverter os danos causados aos girassóis. Felizmente, a genialidade de Van Gogh eternizou o amarelo vívido das flores.

    Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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